A Cosmovisão Cristã em um Mundo de Vãs Ideologias

INTRODUÇÃO
I – UM MUNDO MOVIDO POR IDEAIS E IDEAS
II – CARACTERÍSTICAS DAS IDEOLOGIDAS CONTRÁRIAS AO EVANGELHO
III – MENTES RENOVADAS PARA UM MUNDO CHEIO DE IDEOLOGIAS
CONCLUSÃO

Professor(a), a lição deste domingo tem como objetivo central ajudar os jovens a refletirem a respeito das ideologias contrárias ao Evangelho. Para ajudá-lo(a) na sua reflexão, leia o subsídio abaixo:

“Em uma época carregada de ideologias, tanto antigas quanto novas, como o cristão pode escutar a serena voz de Deus e discernir a sua perfeita vontade quando tantas vozes humanas invadem o nosso espaço e tentam nos convencer de que são elas — e não o Evangelho — a resposta para os problemas do mundo?
Sabendo que a sociedade atual é dominada por sistemas de pensamentos incompatíveis com a fé cristã, iremos refletir a respeito do conceito de ideologia e como formar uma mentalidade essencialmente cristã, uma visão de mundo abrangente, pela qual possamos discernir as vozes do nosso tempo e refutar os sistemas de ideias incompatíveis com as Escrituras.

UM MUNDO MOVIDO POR IDEIAS E IDEAIS

Com o fim da Guerra Fria e o colapso do comunismo, muitos pensadores chegaram a declarar o fim das ideologias. O cientista político, nipo-americano, Francis Fukuyama foi um dos principais profetas dessa decadência ideológica. Fukuyama acreditava que o capitalismo e a democracia liberal representavam o último estágio da história humana e, após o esgotamento do comunismo e do fascismo, não haveria mais espaço para novas lutas ideológicas. Tal prognóstico, porém, não foi confirmado pela realidade. Embora todas as ideologias e promessas históricas que marcaram o século XX, baseadas na autonomia do indivíduo, tenham falido, caindo uma após a outra como soldadinhos de brinquedo1, outras ideologias se apresentaram para preencher o vácuo deixado 2, porquanto a mente caída do homem é habilidosa para inventar (Ec 7.19) sistemas sociais e políticos que visam dar sentido ao mundo e resolver os problemas decorrentes da Queda no pecado. Porém, quando tal idealização se firma em fundamentos secularizados, que partem da premissa da inexistência de Deus, então o desmoronamento ideológico é inevitável.

Mas, afinal, que é uma ideologia?

Em linhas gerais, os dicionários a definem como o conjunto de ideias, convicções e princípios filosóficos, sociais, políticos que caracterizam o pensamento de um indivíduo ou grupo social. Seu propósito básico é estabelecer um conjunto de premissas e pressupostos que sirvam como norte para a conduta pessoal ou coletiva. 

A ideologia pode ser vista como uma falsa consciência, utilizada com o intuito de justificar uma determinada ordem social; uma suposta leitura verdadeira da realidade 3. Nesse sentido, ideologia é um elemento básico em qualquer visão de mundo, pois fornece as crenças básicas e estabelece os ideais de vida de uma pessoa 4. Pense por exemplo no socialismo. Aqueles que acreditam nessa ideologia vivem de acordo as suas declarações básicas, pois acreditam serem elas verdadeiras. A ideologia molda as opiniões e o comportamento das pessoas, instigando-as a agirem dessa ou daquela outra maneira.

Ideias e consequências

Considerando que as ideologias não são simples modelos teóricos, elas têm repercussões. Afinal, ideias tem consequências! Thomas Sowell diz que “políticas baseadas em uma determinada visão de mundo têm consequências que se espalham pela sociedade e reverberam durante anos, ou mesmo por gerações, ou séculos”5 .

Para ilustrar o poder das “meras ideias”, Dallas Willard relembra o livro de 1889 do romancista francês Paul Bourget, intitulado O discípulo. O livro narra a história de um importante filósofo e psicólogo, que vivia basicamente absorto em coisas “meramente” acadêmicas. Ele morava em seu apartamento e a sua rotina consistia basicamente em refeições, passeios, cafés e aulas e, três vezes por semana recebia visitas de professores e aluno das quatro às seis, depois jantava, fazia uma curta caminhada. Depois, trabalhava um pouco mais e ia se deitar pontualmente às dez horas. Era a existência de um erudito inofensivo que, nas palavras de sua empregada, “não machucaria uma mosca”. Um dia, entretanto, ele foi chamado a prestar depoimento num inquérito policial sobre um de seus ex-alunos, um rapaz brilhante que costumava ir à casa de seu mestre para aprender e embriagar-se em discussões iluminadoras e libertadoras. E, na prisão, enquanto aguardava o julgamento por homicídio, o jovem rapaz escreveu ao seu mestre falando sobre aquilo que havia feito e sobre como todas as teorias aprendidas e discutidas em sala de aula foram colocadas em prática por ele. Ao final, Willard diz que “só raramente as consequências envolvem assassinato, mas os acontecimentos do mundo e da vida das pessoas navegam sobre as águas de um mar ideológico. As matanças no Camboja procedem de discussões filosóficas em Paris 6” .

Outro exemplo marcante dos efeitos negativos de ideias distorcidas está em um dos maiores assassinos da história mundial: Adolf Hitler. Suas concepções sobre a superioridade da raça ariana e as suas teses racistas e antissemitas foram responsáveis pelo genocídio de milhares de pessoas, desencadeando a 2ª Guerra Mundial. Hitler simplesmente aplicou os conceitos teóricos de sua ideologia de seleção natural aos seres humanos. Prova disso foi Auschwitz, campo de concentração e símbolo do holocausto provocado pelo nazismo.

Jesus afirmou que uma árvore é conhecida pelos seus frutos (Mt 7.15-20). Assim como árvores ruins não podem dar bons frutos, ideologias maléficas, portadoras de visões distorcidas acerca da humanidade e da moralidade, não podem dar bons resultados; ao contrário, elas trazem prejuízos e levam ao caos social. Por esse motivo, devemos ter cautela e discernimento para não nos tornarmos presas de ideologias desvirtuadas, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo (Cl 2.8).

Conclusão

Conceitualmente, vimos que ideologia corresponde a um sistema específico de ideias, uma visão totalizante da vida. Enquanto tal, ela busca resolver os problemas sociais, econômicos e políticos do mundo, apresentando-se como uma ‘tábua de salvação’. Em certo sentido, todos os sistemas de ideias possuem uma dimensão religiosa, ao prometer ao ser humano libertação de certos males que afligem a sociedade. O que distingue uma ideologia da outra é a ênfase dada a algum aspecto ou elemento presente no mundo. Com efeito, o ponto comum a todas as ideologias é a veneração excessiva a algum aspecto da criação, o que faz surgir um tipo de idolatria” (Êx 20.3; Rm 1.25; 1Co 10.7). Geralmente, pensamos em idolatria exclusivamente como o culto de imagens e esculturas feitas por mãos humanas. Mas a idolatria envolve muito mais. É o pecado que tenta substituir o Deus verdadeiro por falsos deuses criados pelo homem, sejam eles físicos ou não, tanto em forma material quanto teórica (Sl 96.5). Em sentido mais amplo, portanto, “a idolatria em formas teóricas pode incluir as vãs filosofias dos homens, pois ela tira parte da glória de Deus (Rm 1.23) e confere honras divinas a outrem. Assim, o naturalismo, o humanismo e o racionalismo são tipos de idolatria 7” .

*Este subsídio foi adaptado de NASCIMENTO, Valmir. Seguidores de Cristo: Testemunhando numa Sociedade em Ruínas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, pp. 13-26.

1 COLSON, C.; PEARCEY, N. E agora, como viveremos. Rio de Janeiro: CPAD, 2000, p. 360.
2 KOYZIS, D. T. Visões e ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 17.
3 RAMOS, L. Os ídolos do nosso tempo: a cosmovisão cristã em um mundo de esquerdas e direitas. In: RAMOS, L; CAMARGO, M; AMORIM, R. Fé cristã e cultura contemporânea: cosmovisão cristã, igreja local e transformação integral. Viçosa/MG: Ultimato, 2009, p. 138.
4 PALMER, 2001, p. 26.
5 SOWELL, T. Conflito de visões: origens ideológicas das lutas políticas. São Paulo: É Realização, 2011, p. 20, 21.
6 WILLARD, 2001, p. 27.
7 PFEIFER; VOS; REA, 2000, p. 946.

Confira a vídeo-aula:

 

Anúncios

Relevantes como o Sal, Resplandecentes como a Luz

INTRODUÇÃO
I – COMISSIONADOS PARA TRANSFORMAR O MUNDO
II – RELEVANTES COMO O SAL
III – RESPLANDECENTES COMO A LUZ
CONCLUSÃO

Professor(a), a lição deste domingo tem como objetivo central mostrar aos jovem o poder do Evangelho para transformar o ser humano e a realidade social. Para ajudá-lo(a) na sua reflexão, leia o subsídio abaixo:

“A metáfora ‘sal da terra’ e ‘luz do mundo’ empregada por Jesus é das mais contundentes e significativas do Novo Testamento, fornecendo aos discípulos inspiração e responsabilidade para o cumprimento da missio Dei1 no mundo. A ilustração empregada pelo Mestre foi decisiva para pavimentar o testemunho cristão no curso da história e ainda permanece igualmente válida para a igreja contemporânea, instigando-a ao cumprindo da missão que lhe foi confiada.
Para compreendermos a essência das palavras de Jesus, é importante destacar as palavras de Roy Zuck e Darrel Bock, a respeito do Evangelho de Mateus: ‘[…] o assunto das missões é um ponto de transição apropriado para mudar da discussão sobre Deus e sua obra para os discípulos e seu trabalho, já que o tópico diz respeito ao objeto, ao sujeito e à motivação que reúnem Deus, seu povo e os que precisam de salvação’2 . Assim, as missões ‘são uma questão de suprema importância para Mateus, fato esse demonstrado pelo lugar que ocupam no ponto culminante de seu Evangelho’3 .

As palavras registradas em Mateus 28.19, ‘[…] ide, ensinai todas as nações’ é uma ordem que assume lugar central à medida que o Evangelho de Mateus se aproxima do fim, cujo contexto ‘tem o efeito de transformar esse comissionamento em um decreto que se perpetua, já que Jesus estipula que o processo de fazer discípulos deve incluir ensiná-los ‘a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado (v.20)’4 . Dentro dessa perspectiva, ‘a principal ordem entre os mandados de Jesus que devem ser ensinados e obedecidos diz respeito às missões’5 . Mais:

Mateus não espera o fim do evangelho para enfatizar o tema das missões no ensinamento de Jesus. Na verdade, o primeiro chamado de Jesus para seus discípulos é uma convocação para que se juntem a Ele na obra de fazer mais discípulos: “Vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens” (4.19). Dessa forma, as primeiras e as últimas palavras de Jesus para os discípulos se tornam uma ordem para ampliar e entender o grupo de comunhão6.

De fato, ao passo que descortinamos as narrativas do evangelho, vislumbramos não somente a preocupação de Cristo com o ministério que apontava para a cruz, mas também o seu investimento no chamado e formação de discípulos, de maneira tal que pudessem pôr em prática a estratégia de Deus neste mundo. Nas palavras de Robert Coleman: ‘O objetivo inicial do plano de Jesus era o de arregimentar pessoas que fossem capazes de testemunhar a respeito de sua vida e manter sua obra em andamento depois que retornasse ao Pai’ 7.

Não é de surpreender, portanto, que a eloquente e inconteste afirmação de Jesus para os seus discípulos sobre a qual estamos abordando, está situada logo após as bem-aventuranças, sugerindo com isso que para ser sal e luz neste mundo o discípulo deve primeiramente compreender as características e o comportamento que dele se espera. As beatitudes servem como preâmbulo constitucional da missão cristã na terra e estabelece valores que devem dirigir o encargo sociocultural dos crentes, sem os quais não temos condições de testemunhar efetivamente no presente tempo. Isso diz respeito a caráter e integridade, que devem fazer notar o sabor e a transparência da vida autenticamente cristã.

Noutras palavras, Jesus anuncia antecipadamente as qualidades daqueles que hão ser sal da terra e luz do mundo: os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores e os que sofrem perseguição. Assim o é porque, enquanto a metáfora diz respeito à diferença que os cristãos devem fazer no mundo, as bem-aventuranças destacam as diferenças que os cristãos devem ter em relação aos padrões do mundo. O expositor bíblico Warren Wirsbe disse com propriedade que as bem-aventuranças ‘[…] mostram uma perspectiva radicalmente diferente daquela do mundo ao nosso redor. O mundo estimula o orgulho e não a humildade. O mundo incentiva o pecado, especialmente se for possível escapar impunes. O mundo está em guerra com Deus, enquanto Deus deseja se reconciliar com seus inimigos e recebê-los como filhos’ 8.

Portanto, a perícope de Mateus 5.13-15 tem como pano de fundo a missão de Deus para os seus discípulos, e compõe um encargo bem específico, um comissionamento dentro da Grande Comissão (Mt 28.10-20). Partilham desse entendimento Roy Zuck e Darrel Bock, para quem tal passagem é um ‘comissionamento em miniatura’ 9, não por ser de menor importância, mas por estar associada ao mandato bíblico de proclamar a salvação e fazer discípulos.

Conclusão

Jesus inicia o seu discurso de maneira direta, sem rodeios ou meias palavras: “Vós sois o sal da terra” (v.13). Franz Zeinlinger refere que esta partícula é uma ‘determinação do ser’. Não há margem aqui para conjecturas. O Mestre diz de maneira explícita que os discípulos são o sal da terra, no sentido de obrigação, de dever ser. Por certo, tais palavras contrastam com uma cultura marcada pelas aparências e hipocrisias, presente até mesmo no campo religioso, em que as pessoas simulam comportamentos e virtudes para parecer ser alguma coisa. O comando divino não é para que o povo de Deus pareça ser sal, e sim que seja sal, de fato e de direito!

*Este subsídio foi adaptado de NASCIMENTO, Valmir. Seguidores de Cristo: Testemunhando numa Sociedade em Ruínas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, pp. 11-16.

Que Deus o(a) abençoe.


Expressão latina que significa a missão de Deus.
2 ZUCK, R. B. (Ed). Teologia do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2016, p. 43.
3 ZUCK, 2016, p. 43.
4 ZUCK, 2016, p. 43.
5 ZUCK, 2016, p. 43.
ZUCK, 2016, p. 44.
7 COLEMAN, R. E. Plano Mestre de Evangelismo. São Paulo: Mundo Cristão, 2016, p. 16
8 WIRSBE, W. W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento1. Santo André/SP: Editora Geográfica, 2007, p. 24.
9 ZUCK, 2016, p. 44.

Que Deus o(a) abençoe.

Telma Bueno
Editora responsável pela Revista Lições Bíblica Jovens

Confira a vídeo-aula da lição

 

O problema da fome no mundo contemporâneo

INTRODUÇÃO
I – A FOME NAS ESCRITURAS SAGRADAS
II – A FOME COMO SINAL DA VINDA DE JESUS
III – A FOME NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
CONCLUSÃO

“A falta de acesso a alimentação básica ainda é um problema crônico nesse início de Século XXI. Uma em cada sete pessoas passa fome no mundo, apontam as pesquisas mais otimistas. Não se trata de fome eventual, ocasionada pela ausência temporária de recursos financeiros. É a falta constante de comida em quantidade suficiente para saciar adequadamente as necessidades de indivíduos e famílias inteiras ao redor do planeta.

Mas como é possível explicar a insegurança alimentar no tempo presente? Por que as inovações tecnológicas e os novos meios de produção e distribuição de alimentos não foram capazes de solucionar até agora esse problema social que perdura por centenas de anos? Para responder esses questionamentos devemos nos voltar para as Escrituras, a fim de compreender a origem da escassez de alimentos e o que os cristãos podem fazer a respeito.

Continuar lendo “O problema da fome no mundo contemporâneo”

A Escola Dominical dos ateus

por Valmir Nascimento Milomem Santos

Artigo publicado na Revista Ensinador Cristão – Ano 11 n.º 41

Por que até os ateus também estão adotando escolas dominicais?

Nas manhãs de domingo, a maioria dos pais que não acreditam no Deus dos cristãos, ou em qualquer deus, provavelmente estarão tomando café da manhã ou numa divertida partida de futebol com as crianças, ou fazendo alguma tarefa doméstica ou, com sorte, dormindo. Sem religião, não há nenhuma necessidade por igreja, certo? Talvez. Mas alguns não crentes estão começando a achar que necessitam de algo para os seu filhos. Quando você tem crianças, diz Julie Willey, uma engenheira de design, você começa a notar que seus colegas de trabalho ou amigos têm uma igreja e se reunem para ajudar a ensinar os valores às crianças. Assim todas as semanas, Willey que é budista e nunca acreditou em Deus, e o marido dela colocam suas quatro crianças em uma minivan azul e vão ao Centro da Comunidade Humanista em Palo Alto, Califórnia, para a escola dominical ateísta[i].

Assim inicia a matéria intitulada “Sunday School for Atheist” (Escola Dominical Ateísta), publicada na revista americana, Time, em que traz à evidência uma prática relativamente recente entre ateus norte-americanos, que é a escola dominical para os filhos de não crentes. O programa pioneiro ocorreu em Palo Alto, Califórnia, com expectativas de abertura de novos trabalhos em Phoenix, Albuquerque, Portland e outras localidades dos Estados Unidos. Segundo a revista, o movimento crescente de instituições para crianças de famílias de ateus também incluia acampamentos de verão em cinco estados mais Ontario, e a Academia Carl Sagan, na Flórida, a primeira escola pública Humanista do país que abriu com 55 crianças no outono de 2005.

O Programa Palo Alto Family, registra a revista, usa música, arte e discussão para encorajar expressão pessoal, curiosidade intelectual e colaboração. Em um domingo de outono, anotam, pode-se encontrar até uma dúzia de crianças de até 6 anos de idade e vários pais que tocam instrumentos de percussão e cantam hinos como “Ten Little Indians”, em vez de canções como “Jesus me ama”. Em vez de ouvirem história da Bíblia, a classe lê parábolas seculares.

Algumas reflexões

Como se percebe, vários pais não crentes entenderam a importância de levarem seus filhos a escolas dominicais localizadas em centros humanistas onde possam, segundo eles, aprender a refutar os argumentos religiosos dos cristãos. Assim, a ED ateísta nasceu com o principal propósito de ensinar as crianças como responder à maioria dos cristãos, segundo princípios humanistas e seculares.

Ao tomarmos conhecimento desse fato, nós, cristãos, somos inundados por um sentimento de estranheza e perplexidade, é claro. Isso porque, bem sabemos, a essência dessa instituição está intimamente relacionada ao cristianismo, ao ensino bíblico e à crença inabalável em um Deus que criou todas as coisas.

Apesar disso, tal acontecimento deve ser observado de modo reflexivo, a fim de tirarmos algumas conclusões, tendo por base a indagação: Por que até os ateus também estão adotando escolas dominicais?

A nova perspectiva ateísta

Em um primeiro enfoque, é preciso assentar que a ED ateísta é decorrência de uma nova perspectiva por parte dos antiteístas (incrédulos, ateus, agnósticos, céticos etc) da atualidade. O ateísmo (pós) moderno difere-se em muito do ateísmo de um passado não muito distante. Se outrora eles não faziam questão de expor abertamente suas idéias, hoje estão a defendê-las de maneira ostensiva, baseados em uma visão de mundo eminentemente secularizada.

Com efeito, vislumbra-se no atual contexto uma espécie de ativismo ateu. Nesse sentido, podemos citar um dos seus principais precursores, o ateu Richard Dawkins, o qual, por exemplo, encabeçou recentemente uma campanha publicitária em que a frase “Provavelmente Deus não existe; então, pare de se preocupar e aproveite sua vida” foi estampada em centenas de ônibus no Reino Unido. Dawkins, inclusive, em seu livro “Deus, um delírio”, não satisfeito em simplesmente defender suas idéias, faz questão ainda de tecer duras críticas direcionadas aos cristãos, chegando ao ponto de escrever que Deus é um delinquente psicótico, inventando por pessoas loucas, iludidas”.

Nesse foco, uma ala mais fanática dos ateus estão a defender sua descrença com contornos de verdadeira religiosidade, tanto é assim que Alister McGrath no livro “O delírio de Dawkins”, escreve que “tal como um evangelista, Dawkins prega a seus devotos do ódio a Deus, os quais se deliciam com o bombardeio retórico e erguem as mãos, prazenteiros”… “os verdadeiros cientistas rejeitam a fé em Deus! Aleluia![ii].

Como anotou Ravi Zacharias[iii], infelizmente o ateísmo está vivo e é mortal. Mais perigoso ainda agora com nuanças de religiosidade materialista para quem o homem é o seu próprio Deus e a lógica científica a única forma de revelação. E assim como uma igreja que possui escola para a instrução, ensino, e fortalecimento da fé de todos os seus membros, o ateísmo da atualidade tem buscado também formas de educar as crianças segundo a visão ateísta

Ora, se o ateísmo contemporâneo adquiriu características de religião, a criação de ED para o ensino do pensamento ateu é realmente uma decorrência lógica (apesar de triste) dessa nova onda de incredulidade. É a educação para a descrença!

Escola Dominical: modelo para ser copiado

Sob um outro enfoque, porém, a utilização do modelo de ensino cristão por parte dos ateus revela algo positivo: a importância da escola dominical. A sua existência histórica tem se mostrado tão válida e necessária que até mesmo os ateus copiaram o padrão educacional cristão a fim de instruirem seus próprios filhos. Idealizada por Robert Raikes, a ED cresceu, multiplicou e deu tantos frutos que é impossível não tê-la como um padrão de sucesso educacional e digna de ser seguida. Como escreveu a missionária Ruth Doris Lemos:

“No mundo, há muitas coisas que pessoas sinceras e humanitárias fazem, sem pensar ou imaginar a extensão de influência que seus atos podem ter. Certamente, Robert Raikes nunca imaginou que as simples aulas que ele começou entre crianças pobres, analfabetas da sua cidade, no interior da Inglaterra, iriam crescer para ser um grande movimento mundial. Hoje, a Escola Dominical conta com mais de 60 milhões de alunos matriculados, em mais de 500 mil igrejas protestantes no mundo. É a minúscula semente de mostarda plantada e regada, que cresceu para ser uma grande árvore cujos galhos estendem-se ao redor do globo”.[iv]

Mas, é importante ressalvar com o Pastor Antônio Gilberto em seu livro A Escola Dominical (citado por César Moisés), que a ED é uma instituição moderna da maneira como a conhecemos, mas que o seu princípio fundamental, ou seja, o do ensino bíblico determinado por Deus ao povo de Israel como aos gentios, remonta a alguns milênios. Segundo o Pastor Antônio Gilberto: “A Escola Dominical é a fase presente da instrução bíblica milenar que sempre caracterizou o povo de Deus”.[v]

Esse fato, por si só, é um excelente ponto de análise para aqueles que sempre olharam a ED com desconfiança ou a têm como desnecessária. A sua importância, vale dizer, não é somente história, mas, sobretudo, prática. Ken Hemphil, no livro Redescobrindo a alegria das manhãs de domingos, lembra que “a Escola Dominical não é um dinossauro”[vi], o que existe é uma compreensão equivocada sobre a forma como ela deve ser mantida, de modo que nossa intenção não deve ser preservá-la por simples nostalgia; temos de descobrir ferramentas e organizações que nos capacitem a cumprir a Grande Comissão da maneira mais eficiente possível”.

Em outros termos, a Escola Dominical deve ser mantida não somente por se tratar de algo histórico e que vem sendo utilizado ao longo dos anos; mas sim em razão da enorme e crescente necessidade de genuíno e sadio alimento espiritual que só pode ser obtido pelo estudo claro, metódico, continuado e progressivo da Palavra de Deus.

A valorização dos cristãos à ED

Outro ponto que deve ser considerado acerca da matéria da Time, diz respeito à importância que os pais ateus dão à educação de seus filhos. Essa observação faz-nos refletir acerca de como os cristãos, principalmente os pais, tem valorizado a educação de seus filhos, a ED e até que ponto existe verdadeiro investimento nela. Afinal, se os ateus começaram agora a valorizar o modelo educacional da ED, mais ainda devem fazê-lo os cristãos, que conhecem de perto o seu valor.

Essa conscientização torna-se necessária porque, não poucas vezes, percebemos um visão equivocada acerca dessa agência de ensino dentro mesmo das igrejas cristãs. Como bem anota Renato Vargens, “154 anos se passaram desde que os Kalley organizaram a EBD no Brasil, e de lá para cá muita água passou debaixo da ponte. Sem titubeios afirmo que inúmeras gerações foram impactadas pelo ensino das doutrinas bíblicas nas salas de aula das escolas dominicais esparramadas pelo nosso imenso território nacional”. Entretanto, escreve ele: “Hoje, em detrimento a pós-modernidade, o que era absoluto foi relativizado. Os que outrora pregavam sobre a importância da EBD, não o fazem mais. Para piorar a situação, os crentes optaram por fazer do domingo o seu dia de lazer deixando em segundo plano o estudo da Palavra de Deus”.[vii]

Portanto, além de outros elementos, a evidenciação da ED ateísta remete-nos a uma reflexão sobre o valor que temos dado à nossa escola dominical, afinal é nela que o cristão recebe alimento substancial para a sua caminhada cristã. Como arremata Antônio Gilberto:

“É evidente que se a igreja de hoje cuidasse devidamente do ensino bíblico junto à crianças e aos novos convertidos, teríamos uma igreja muito maior. Pecadores se convertem aos milhares, mas poucos permanecem porque lhes falta o apropriado ensino bíblico que lhes cimente a fé. Falta-lhes a raiz ou base sólida e profunda. A planta da parábola morreu, não porque o sol crestou-a, mas, sim principalmente, porque não tinha raiz” (MT. 13.6).”[viii]

Valmir Nascimento Milomem Santos, é graduado e pós-graduado em Direito. Presbítero da AD. em Cuiabá/MT. Editor dos blogs www.comoviveremos.com e www.ensinodominical.com.br

Notas:


[i] JENINNE LEE-ST, John. Sunday School for Atheist. Time. Disponível em http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,1686828,00.html. Acesso em 06/10/2009. (Tradução livre).

[ii] MCGRATH, Alister. O delírio de Dawkins. São Paulo: Mundo Cristão, 2007, p.23.

[iii] ZACHARIAS, Ravi. Pode o homem viver sem Deus? São Paulo: Mundo Cristão, 1997, p. 21.

[iv] LEMOS, Ruth Doris. A minúscula semente de mostarda que se transformou numa grande árvore. Disponível em http://www.cpad.com.br/artigos/artigo_1.htm. Acesso em 06/10/2009.

[v] GILBERTO, Antônio, citado por CARVALHO, César Moisés. Marketing para a Escola Dominical. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p.101.

[vi] HEMPHILL, Ken. Redescobrindo a alegria das manhãs de domingo. São Paulo: Eclesia, 1997, p.10.

[vii] VARGENS, Renato. Escola Dominical uma estrutura em extinção?. Disponível em http://renatovargens.blogspot.com/2009/09/escola-dominical-uma-estrutura-em_08.html. Acesso em 08/10/2009.

[viii] CARVALHO, César Moisés; op. cit.