A resposta cristã para a violência urbana

INTRODUÇÃO
I – A PERSPECTIVA BÍBLICA SOBRE A VIOLÊNCIA
II – O PODER PÚBLICO E A VIOLÊNCIA URBANA
III – A IGREJA EM UMA SOCIEDADE VIOLENTA
CONCLUSÃO

Perspectiva Bíblica sobre a Violência

Não há como combater a criminalidade se não reconhecermos a verdade básica da realidade do mal. O mal não é uma ilusão ou uma simples doença mental, como afirmam certos sociólogos. Ainda que problemas patológicos possam, em alguma medida, contribuir para atos violentos, a raiz da criminalidade encontra-se na natureza humana decaída.
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Política e corrupção na perspectiva cristã

Política Governamental e Corrupção

Os dicionários definem o vocábulo política como a arte de governar. Logo, ela é parte essencial da vida humana. Aqueles que afirmam não gostar de política, desconhecem que é exatamente ela quem define os temas que afetam o nosso dia a dia.

Na esfera pública, a política refere-se à forma como os governantes administram e tomam as melhores decisões para a nação, estado ou município. Vemos então que política tem a ver com poder, afinal somente governa quem detém autoridade. Miguez Bonino observou que “o âmbito político tem o tema do poder como uma das referências fundamentais” 1. Não a única, diz ele, mas também “as questões das estruturas de organização política, e da lei, e da justiça são igualmente importantes. Porém, sem dúvida, as questões das fontes de poder, os mecanismos do exercício do mesmo, os riscos e a corrupção do poder são temas inescapáveis em qualquer consideração da política” 2.

Nesse aspecto, as Escrituras ensinam que Deus delega certa autoridade ao homem para governar (Tt 3.1; Pv 8.15). Romanos 13.1-4 declara:

Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as autoridades que há foram ordenadas por Deus. Por isso, quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação. Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela. Porque ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus e vingador para castigar o que faz o mal.

Paulo nos oferece o fundamento sobre o qual podemos compreender adequadamente o sentido do poder na política, especialmente em relação à sua origem. Ele deixa evidente que, seja qual for o mecanismo social de escolha das autoridades terrenas, Deus é a fonte do poder de onde os governantes retiram a sua legitimidade para governar.

Considerando o contexto em que a carta foi escrita, sob a égide do domínio romano, a declaração de Paulo possui um conteúdo subversivo. Paulo está enfrentando o poder imperial de sua época ao afirmar que a autoridade suprema não é o imperador, mas Deus. A esse respeito, Franklin Ferreira diz que: “Paulo quer mostrar aos cristãos romanos que eles, diante da ira de Deus sobre os que pervertem sua autoridade, não devem ser intimidados, mas sim, estar prontos para expressar a mensagem do evangelho de Jesus Cristo como único Senhor também na esfera pública — ainda que, em Roma, a religião pertencesse à esfera privada”3.

Com isso, entendemos que o estado ou qualquer outra instituição pública está abaixo do Criador. Quando a vontade do poder público e do povo entram em conflito com a vontade divina (Ef 6.7), não há outra opção senão obedecer a Deus (At 5.29). Desse modo, tão errado quanto adorar a César nos tempos de Jesus, é a lealdade absoluta ao estado nos dias atuais. Esse tipo de lealdade só devemos a Deus.

Compreendemos também que a política possuí finalidade legítimas. Utilizada de forma correta, ela deve servir para aprovar leis justas, refrear o mal e praticar o bem, a fim de proporcionar aos cidadãos uma sociedade onde haja liberdade, acesso à saúde, segurança e educação de qualidade, por exemplo.

O Mal da Corrupção

Apesar de possuir finalidades legítimas, a política pode ser utilizada para fins ilícitos. Isso porque, nem todos aqueles que ocupam cargos públicos estão preocupados com a sociedade e o interesse coletivo. Muitos se valem do cargo para proveito próprio e aumento do patrimônio pessoal, por meio do desvio de dinheiro dos cofres públicos e outros esquemas, falcatruas e “jeitinhos” para obtenção de vantagens desonestas, fazendo surgir a corrupção.

No Brasil, afirma-se que a corrupção política esta impregnada na cultura nacional, ante a normalidade com que usualmente o problema é encarado. Pesquisa realizada em 2016 apontou que sete em cada dez brasileiros afirmaram já ter cometido pelo menos uma atitude que pode ser considerada corrupção. Mas os entrevistados não se assumem: somente 3% deles, questionados se consideram corruptos, reconheceram que sim 4.

A existência da corrupção comprova uma doutrina bíblica irrefutável: a depravação total provocada pela Queda do homem no pecado. Tal doutrina ensina que o homem é totalmente incapaz de chegar-se a Deus mediante seus próprios méritos e esforços, em virtude de sua morte espiritual e natureza pecaminosa; assim como é completamente incapaz de, por si só, dominar o pecado. Essa é uma doutrina básica defendida pelo arminianismo clássico, à luz das Escrituras. Essa é a razão pela qual o homem, caído, tem a propensão à corrupção.

Enquanto o filósofo francês, do século XVIII, Jean-Jacques Rousseau dizia que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe — ideia esta que se encontra na base de muitas ideologias contemporâneas, a fé cristã afirma que o homem já nasce corrompido, com a propensão para a corrupção nos planos moral, político, jurídico, econômico, religioso, científico, etc. Essa a razão pela qual a concepção judaico-cristã, ao compreender de maneira adequada a natureza humana, enfatiza que “a confiança nas capacidades humanas deve coexistir sempre com uma medida razoável de desconfiança e precaução em todos os domínios da vida” 5.

A corrupção acarreta graves consequências sociais. Ela contribui para a desigualdade e aumento da miséria, reduz o crescimento econômico e prejudica, por consequência, a oferta dos serviços públicos básicos aos cidadãos. De acordo com Provérbios 29.1, o povo se alegra com a administração sábia e justa, mas geme quando os impiedosos dominam. Igualmente, o governante justo administra corretamente a sua terra, mas o corrupto a destrói (Pv 29.4).

A Separação entre Estado e a Igreja

O ponto de partida para a efetiva relevância cristã no campo da política tem início com o entendimento adequado da relação entre Estado e Igreja. Sem uma consistente interpretação bíblica acerca deste ponto, teremos dificuldades em dar bom testemunho no ambiente público.

Os evangelhos narram um dos episódios em que os religiosos dos tempos de Jesus tentam, como de costume, colocá-lo em uma situação embaraçosa diante dos judeus e do Império Romano. Aproveitando a ocasião em que o Nazareno havia acabado de proferir um dos seus ensinamentos, os principais dos sacerdotes e os escribas enviam alguns de seus homens como espias em meio ao povo, para que pudessem apanhá-lo em alguma palavra que o condenasse.

Usando um discurso carregado de falsidade e perversidade eles indagam a Jesus: “Mestre, nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente, e que não consideras a aparência da pessoa, mas ensinas com verdade o caminho de Deus. É-nos lícito dar tributo a César ou não?” (Lc 20.21,22). A pergunta põe Jesus em uma situação complicada e aparentemente sem saída: uma resposta afirmativa desagradaria aos judeus, que viviam sob o jugo romano; a negação, por outro lado, confrontaria o próprio Império Romano, o que poderia levá-lo a ser acusado de sedição. Jesus, porém, sabendo da astúcia de seus interlocutores, toma em suas mãos uma moeda romana da época e pergunta-lhes: “De quem é esta efígie e esta inscrição?”. Eles dizem: “De César”. Então, Jesus responde: “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Lc 20.24,25).

Essa frase de Jesus tem ecoado desde então, servindo como uma passagem essencial na fundamentação da teologia política cristã, para regular o relacionamento entre o cristão e o governo humano e entre a Igreja e Estado. Majoritariamente, o pensamento cristão histórico tem entendido que a afirmação de Jesus estabelece distinção entre o poder político e o poder religioso, separando as esferas do Estado e da igreja como entes autônomos e distintos. O protestantismo, com efeito, da qual o pentecostalismo clássico descende, não advoga uma teocracia política, e sim uma participação construtiva, propositiva e até mesmo questionadora, em defesa da justiça e de seus valores e princípios bíblicos, sem que a organização religiosa tenha que assumir algum tipo de protagonismo político.

Seja como for, ainda que a interpretação mais dominante acerca das palavras de Jesus indique que Ele estivesse instruindo seu público que a igreja e o governo têm jurisdição sobre diferentes esferas de autoridade, a própria pergunta de Cristo acerca da imagem na moeda contém implicações subjacentes que direcionam para a soberania divina, como bem lembrou Francis Beckwith. A outra pergunta implícita que deve ser respondida é: Quem tem em si a imagem de Deus? “Se a moeda representa a autoridade de César, porque tem nela sua imagem, então, nós seremos humanos, estamos sob a autoridade de Deus, porque temos em nós a sua imagem” 6. Assim, “o governo e a Igreja, apesar de terem jurisdições distintas, partilham da obrigação comum de promover o bem-estar daquele que são feitos à imagem de Deus” 7.

Como o Cristão Deve Lidar com a Política e a Corrupção

Não há nada de errado com a participação política dos cristãos. Enquanto cidadãos, os crentes também têm direitos e responsabilidades na cidade dos homens. O apóstolo Paulo valeu-se da cidadania romana para exercer seus direitos e garantias legais (At 16.37-39; 22,25-28; 25,10-12). Uma vez que os crentes são portadores de cidadania política, nos é possível participar da escolha dos governantes, assim como contribuir com as discussões e o rumo político da nação. Assim, é de se rejeitar a perspectiva apolítica da comunidade cristã.

Todavia, a participação da comunidade de cristã na arena política não deve se dar de qualquer maneira. Para ser considerado relevante, é necessário que o engajamento político dos crentes seja direcionado por uma postura socialmente adequada e teologicamente consistente. Caso contrário, a igreja local corre o risco de, dentre outros aspectos, ser seduzida (1) pelo desejo de dominação política, com base em perspectivas teocráticas, teonômicas e dominadoras, pondo em risco o princípio democrático; (2) pela ambição de benefícios próprios, aplicáveis aos círculos denominais, em detrimento do bem comum; (3) pelas propostas e ofertas de partidos políticos e candidatos, aliando-se a determinadas ideologias que destoam do cristianismo ortodoxo; (4) pela ilusão de messianismo político, de modo a colocar as esperanças neste ou naquele candidato; (5) pela visão espiritualista da disputa eleitoral, compreendendo o processo eleitoral eminentemente com uma batalha espiritual e o adversário como inimigo demoníaco.

O risco da inserção na arena política, sem um modelo bíblico adequado, é ainda mais agravado ao se perceber o perigo que representa — tanto ao testemunho cristão quando à teoria política — uma saída abrupta da prática privatizada, experiencial e, via de regra, apolítica — que sempre predominou nos circulo cristãos — para uma atuação de ativismo público e politico, sem, antes, passar por um processo de amadurecimento e disseminação de suas bases doutrinais, especialmente aplicada à teologia política.

A Corrupção e o Sétimo Mandamento

Por contrariar o sétimo mandamento (Êx 20.15), a corrupção é severamente condenada aos olhos de Deus (Lv 19.35,36). Ao longo da narrativa bíblica encontramos várias advertências contra diversos tipos de corrupção, no funcionalismo público (Lc 3.12-14), no Judiciário (Dt 16.19,20; Êx 23.8; Pv 17.23; Is 5.22,23; Sl 82.2-5a; Lv 19.15) e no Legislativo: “Ai dos que decretam leis injustas e dos escrivães que escrevem perversidade para prejudicar os pobres em juízo e para arrebatarem os direitos dos aflitos do meu povo, para despojarem as viúvas e para roubarem os órfãos!” (Is 10.1.2).

A fé verdadeira tem um sério compromisso com o combate à corrupção em todos os níveis. Aquele que teve um encontro com o Senhor é aconselhado a não roubar mais (Ef 4.28) e compungido a devolver o que defraudou (Lc 19.8). Não coaduna, portanto, com a crença genuína a prática de atos desonestos, fraudadores e corruptos, e nem mesmo o consentimento com aqueles que assim agem (Rm 1.32). Se nova vida não combina com a vigarice, é inconcebível que a bênção de Deus esteja em negócios escusos e deletérios.

Os crentes devem, por isso, ter voz ativa no combate a todo tipo de corrupção, conduta desonesta e fraudulenta. Não podemos nos calar diante dos atos que dilapidam o patrimônio público e beneficiem aqueles que enriquecem a custa alheia. A igreja não pode silenciar frente aos descalabros e resultados maléficos provocados pelos atos ilícitos de homens maldosos. Assim como no Antigo Testamento, a voz profética da igreja deve ser ouvida nas ruas da sociedade.

Em tempos de crise moral na política do nosso país, a igreja de Cristo pode instruir, conscientizar, denunciar e mobilizar-se para propósitos cívicos legítimos. O poder do Espírito Santo capacita o crente à participação política de forma amorosa e, ao mesmo tempo, corajosa na praça pública, confrontando, quando for o caso, o próprio Estado.

Conclusão

A crise política que se instalou em nossa nação parece ter atingido níveis alarmantes. A estrutura política encontra-se transtornada (Sl 11.3). Diante desse contexto, o que pode fazer o justo? De que maneira o povo cristão pode contribuir com a dimensão política da nação e colaborar para a boa governança pública e o combate à corrupção? A fé cristã tem muito a fornecer ao processo político, pois das Escrituras podem ser extraídos princípios vitais para a vida pública.

*Este subsídio foi adaptado de NASCIMENTO, Valmir. Seguidores de Cristo: Testemunhando numa Sociedade em Ruínas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, pp. 84-93.


1 BONINO, M. Em busca de poder. Ebook Kindle. Rio de Janeiro: Editora Novos Diálogos, 2011,p. 313.
BONINO, 2011, P. 313.
3 FERREIRA, F. Contra a idolatria do estado: o papel do cristão na política: São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 71.
4MARETTI, E. Corrupção no Brasil é cultural e está enraizada no cotidiano das pessoas. Disponível em:http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2016/02/corrupcao-no-brasil-e-cultural-e-esta-enraizada-no-cotidiano-das-pessoas-7122.html
5 MACHADO, 2013, p. 41. BECKWITH, F. Política, fé e separação entre igreja e estado.
6 In: GEISLER, N.; MEISTER, C. (Ed.). Razões para crer: apresentando argumentos a favor da fé crista. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p. 135.
7 GEISLER; MEISTER, 2013, p. 36.


 

Lidando com o preconceito e a discriminação

NTRODUÇÃO
I – PRECONCEITO: CONCEITO GERAL E BÍBLICO
II – DISCRIMINAÇÃO RACIAL, SOCIAL E RELIGIOSA
III – A LEI E O COMBATE À DISCRIMINAÇÃO
CONCLUSÃO

CONCEITO GERAL E BÍBLICO

Equivocadamente, há quem utilize os termos preconceito e discriminação como expressões sinônimas. Mas não são. Enquanto o preconceito diz respeito a uma opinião formada previamente pelo indivíduo, seja positiva ou negativa, a discriminação — como veremos logo mais — é o tratamento desigual e injusto de uma pessoa ou um grupo de pessoas em razão de classe social, cor da pele, nacionalidade, convicções religiosas, etc.

Pode soar absurdo falar em preconceito como algo natural e até mesmo benéfico, pois temos sido informados pela cultura contemporânea que todo preconceito nada mais é que a demonstração odienta de intolerância e de indiferença, algo repreensível por natureza. Todavia, não posso tratar desse tema com o objetivo de rechaçar o preconceito negativo sem antes mencionar que até certa medida é natural que tenhamos algum tipo de preconceito, isto é, determinada convicção prévia sobre as coisas; conceitos anteriores que nos levam a decidir as questões da vida. Todos têm uma visão de mundo que o ajuda a formar suas própria concepção, necessária para a vida em sociedade.

Nessa perspectiva é que Theodore Dalrymple em seu livro Em defesa do preconceito destaca que, em nossos dias, testemunhamos um forte preconceito contra todo e qualquer preconceito. Por essa razão, dificilmente alguém admitirá, hoje, ter algum preconceito. Nas palavras de Dalrymple: “Admiti-lo seria proclamar-se um sectário, o tipo de pessoa que não pode e não quer examinar suas opiniões e concepções prévias e que, consequentemente, apresenta-se como alguém restrito em suas afeições, farisaico em seus julgamentos, xenofóbico em suas atitudes, rígido em seus princípios, severo diante de seus inferiores”1. Assim, Dalrymple observa de maneira perspicaz que, “a julgar pelo que as pessoas dizem de si mesmas, nunca vivemos uma época tão livre de preconceituosos, com tantas pessoas no mais completo e absoluto controle de suas opiniões e, como resultado, viveríamos hoje em um mundo repleto de pessoas absolutamente sensatas, racionais e benevolentes. Ninguém julga nada, pessoas ou questões, exceto à luz da evidência e da sua própria razão”2.

Evidentemente, o objetivo de Dalrymple é demonstrar que é impossível vivermos sem alguns pressupostos básicos. Para Dalrymple, ao fazer isso recusamos qualquer autoridade sobre o nosso comportamento moral, seja essa autoridade a religião, a história ou as convenções sociais, fazendo com que percamos importantes reguladores de comportamentos antissociais. Segundo Dalrymple, é necessário bom senso para saber quando um preconceito deve ou não ser abandonado; é necessário combater não o preconceito em geral, mas os preconceitos ruins e prejudiciais à vida humana.

O nosso foco é combater o preconceito negativo, aquele em que alguém faz um juízo de condenação acerca de outro ou de um grupo de pessoas, sem conhecimento, reflexão ou com imparcialidade. Esse tipo de preconceito é prejudicial e perigoso, pois leva à intolerância, à discriminação e até mesmo à violência. É sobre esse tipo de preconceito que iremos nos concentrar neste capítulo.

Juízes de maus pensamentos

A Bíblia não nos oferece uma definição de preconceito. Todavia, encontramos nela advertências contra o desprezo (Rm 10.12) e o julgamento condenatório dirigido pelas aparências (Jo 7.24) e sem critérios justos (Jo 8.15, 16).

Tiago chama de “juízes de maus pensamentos” aqueles que menosprezavam os menos afortunados (Tg 2.4). Tal expressão aludia aos magistrados que julgavam com base em pensamentos errados, com padrões equivocados e padrões iníquos. De acordo com o Comentário Beacon, a expressão é melhor traduzida por “juízes com pensamentos maus”, no sentido de pensamentos com motivações erradas, padrões errados3. Aquelas pessoas eram conduzidas por uma série de preconceitos maldosos: 1) Que a vestimenta fina era a marca de homens finos e que roupa comum significava caráter comum. 2) Que a riqueza é um marco do valor das pessoas. 3) Que a posição financeira fazia diferença na aceitação na igreja. 4) Que “sistemas de castas” sociais e econômicas são aceitáveis para Cristo e apropriadas para sua Igreja 4.

Certamente, a expressão “juízes de maus pensamentos” é adequada para definir o sentido de preconceito negativo. O julgamento precipitado, parcial e tendencioso resulta em conduta preconceituosa, à medida que parte de uma concepção de superioridade de um grupo em relação a outro.

A passagem bíblica narrada em Atos 10 nos fornece um típico exemplo de preconceito. Estamos falando de um episódio na vida de Pedro, um dos principais do grupo dos doze. A sua forte identidade étnica judia o impedia até então de se misturar com os gentios. O preconceito alojado em sua mente era exatamente este: que sendo ele um israelita, participante do povo escolhido, não deveria se juntar às outras etnias. Naquela época, os judeus levavam o assunto tão longe quanto considerar contaminação cerimonial o toque involuntário de um gentio (Jo 18.28).

Mas Deus se encarregou de desfazer tal preconceito. Ele começou trabalhando na mente de Simão, por meio de uma visão espiritual. Tratava-se de uma ação divina preparatória, para que Pedro recebesse os homens enviados por Cornélio, um gentio piedoso da Cesareia. Nas palavras do expositor bíblico Mathew Henry: “Pedro não tinha superado esta noção fanática e mesquinha que dividia com seus compatriotas, por isso teria desconfiança em ir à casa de Cornélio”5 . Após um período de oração, quando a fome lhe atacava o estomago, Deus lhe mostrou uma visão. Do céu descia um vaso, como se fosse um grande lençol atado pelas quatro pontas, vindo para a terra, no qual havia de todos os animais quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu. Uma voz disse a Pedro: Levanta-te, Pedro! Mata e come. Ao que Pedro respondeu: De modo nenhum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum e imunda. E segunda vez lhe disse a voz: Não faças tu comum ao que Deus purificou. E isto aconteceu três vezes.

É interessante notar que ainda assim Pedro continuava a duvidar. As raízes do preconceito, afinal, são difíceis de serem removidas da mente e do coração humano. Todavia, quando os três homens chegaram a sua casa, o Espírito Santo falou ao coração do apóstolo para que os acompanhasse, porque Deus os havia enviado. Após o encontro com Cornélio, já vemos o novo Pedro, agora sem o velho preconceito. Ao tomar a palavra na casa de Cornélio ele deixou isso bem evidente ao declarar que Deus não faz acepção de pessoas, mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo. Pedro já não era mais um “juiz de mau pensamento”.

Julgando com sabedoria

Será que todo julgamento humano implica em uma espécie de preconceito negativo? A resposta é não.

A advertência do Mestre em Mateus 7.1 “Não julgueis, para que não sejais julgados”, por exemplo, tinha o propósito de coibir o julgamento prematuro e imparcial. Ele não estava estabelecendo um mandamento contra qualquer tipo de julgamento, pelo qual não possamos denunciar o erro e exortar os pecadores. Tanto assim que neste mesmo capítulo Jesus condena a hipocrisia e diz para os discípulos tomarem cuidado com os falsos profetas (v. 15).

O que Jesus estava proibindo nesta passagem, conforme French Arrington e Roger Stronstad, é a mania de criticar, a condenação e a hipocrisia contumaz. “O imperativo presente em ‘não julgueis’ (ou parai de julgar’) indica um estilo de vida e uma atitude habitual de condenação”6. Esse tipo de conduta é característico do preconceituoso.

O objetivo maior da declaração de Jesus, afinal, é que devemos tratar os outros da maneira como queremos ser tratados, com base na regra de ouro (Mt 19.19). Devemos procurar avaliar a nós mesmos, e aos outros, utilizando os mesmos padrões. Somos convidados, como servos de Deus, a julgar com discernimento e sabedoria.

DISCRIMINAÇÃO RACIAL, SOCIAL E RELIGIOSA

Enquanto o preconceito refere-se a um conceito mental prévio, a discriminação significa o tratamento desigual e injusto de uma pessoa ou um grupo de pessoas em razão de classe social, cor da pele, nacionalidade, convicções religiosas, etc. A discriminação é o preconceito em ação!

Discriminação étnica/racial e social

A primeira forma de discriminação é a discriminação étnica ou racial. Ela consiste em qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência, baseadas em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica. Infelizmente, a história mundial é marcada por essa conduta desonrosa, que exclui, segrega e mata. A discriminação social provoca a separação dos indivíduos em razão da classe econômica a que pertencem, gerando marginalização e segregação social. Tiago repreendeu aqueles que em reuniões solenes davam tratamento privilegiado aos ricos e desonroso aos pobres (Tg 2.6), numa verdadeira acepção de pessoas.

A fé cristã é suficientemente relevante para combater qualquer tipo de discriminação. Aliás, somente a cosmovisão cristã fornece o embasamento adequado para o tratamento igualitário entre as pessoas, tendo como fundamento a doutrina bíblica da Imago Dei, a imagem de Deus no homem, extraída da leitura de Gênesis 1.26. Essa passagem bíblica estabelece o princípio segundo o qual todas as pessoas devem ser tratadas com dignidade e isonomia, uma vez que temos a imagem de Deus, não havendo distinção natural entre uma pessoa e outra, entre rico e pobre, entre branco e negro.

A dignidade humana é um atributo universal próprio do ser humano, de procedência transcendente, que gera uma pretensão universal de reconhecimento, respeito e proteção tendo como destinatários todos os indivíduos e todas as formas de poder político e social. O jurista português Jónatas Machado lembra que para a visão do mundo judaico-cristã, essa dignidade especial de ser criado à imagem e semelhança de Deus manifesta-se nas peculiares capacidades racionais, morais e emocionais do ser humano, na sua postura física erecta, sua criatividade e na sua capacidade de articulação de pensamento e discurso simbólico, distinta de todos os animais, por mais notáveis que sejam as suas características. Jônatas destaca ainda que a teologia da imagem de Deus (Imago Dei) constitui a base das afirmações de grandes pensadores da história, a exemplo de Francisco de Vitória, Francisco Suareza, Hugo Grócio, Samuel Pufendorf, John Milton, John Lock James Madison e Thomas Jeferson, sobre a dignidade, a liberdade e a igualdade, as quais viriam a frutificar no mundo jurídico, especialmente o direito a liberdade individual e a capacidade de autodeterminação democrática do povo7 .

Quanto à igualdade, se todos partem do mesmo Criador, não há razão e muito menos justificativa para que um ser humano seja considerado superior ou inferior ao outro, daí porque todos merecem ser tratados sem distinção, independentemente da cor, raça, sexo, etnia ou religião. No cristianismo, o fundamento do tratamento igualitário é o próprio Deus que não faz acepção de pessoas (At 10.34), para quem não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos são um em Cristo Jesus (Gl 3.28). Os cristãos sempre acreditaram que Deus atribui a cada vida humana que cria um valor infinito e que ama a cada pessoa de igual modo.

Com efeito, a Bíblia profere um duro golpe no racismo ao enfatizar que, segundo a imagem daquEle que nos criou, não há grego, nem judeu, nem bárbaro ou cita; mas Cristo é tudo, e em todos (Cl 3.11). O pensamento de segregação étnica e social também não consegue se sustentar diante da irrefutável verdade bíblica de que a graça salvadora se estende a toda humanidade (Jo 3.16), às pessoas de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas (Ap 7.9).

Isso não significa dizer que ao longo da história não tenham existido cristãos que tenham praticado algum tipo de discriminação. Certamente isso aconteceu no passado e infelizmente ocorre em nossos dias. Entretanto, aqueles que assim procederem, o fazem em revelia aos ensinamentos bíblicos e em discordância ao exemplo máximo da fé cristã: Jesus Cristo. Ele é o nosso modelo de conduta e nos ensina a lidar com a discriminação. Cristo via cada pessoa dotada de valor especial para Deus, até mesmo aquelas excluídas da sociedade da sua época. Ele conversa com uma mulher samaritana, toca fisicamente em leprosos e doentes, vai à casa de publicanos e perdoa uma adúltera. Todas essas coisas eram inconcebíveis naquele tempo. Tais pessoas, por um motivo ou outro, eram rejeitadas, indignas de receber um tratamento igualitário. Cristo afasta as barreiras da discriminação e trata cada pessoa de forma especial, estabelecendo um dos conceitos chaves do seu ministério: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10.27).

Ao contrário da cosmovisão cristã, as demais cosmovisões não possuem uma base firme o suficiente na qual a defesa da dignidade humana possa se apoiar. Qual é a justificativa pela qual as pessoas devam ser tratadas com respeito e justiça se elas são meros acidentes biológicos?

Discriminação religiosa

Por fim, a discriminação religiosa diz respeito ao tratamento diferenciado em virtude da crença, religião ou culto praticado por determinada pessoa. Esse tipo de discriminação provoca intolerância, perseguição, violência e morte, como podem atestar vários episódios da história da humanidade. Ainda hoje, cerca de 73% da população do mundo vive em países onde as restrições de liberdade religiosa são consideradas altas ou muito altas, em decorrência da discriminação por motivo de crença religiosa.

Ainda que o cristão creia na exclusividade da salvação em Cristo, e que Ele é o único mediador entre Deus e o homem, não há razão para a prática da intolerância e do menosprezo àqueles que professam confissões distintas. Entretanto, em tempos de pluralismo e relativismo que tenta subverter o sentido das palavras e induzir as pessoas a abandonarem as suas verdades, é imprescindível compreender o significado adequado de tolerância.

Vivendo em uma sociedade aberta, temos o dever de tolerar legal e socialmente os outros. A tolerância legal é o direito que cada pessoa tem de acreditar em qualquer crença (ou em nenhuma) que se queira acreditar. E como disse Erwin Lutzer, tal tolerância é muito importante em nossa sociedade, e nós, como cristãos, devemos manter nossa convicção de que ninguém jamais deve ser coagido a crer no que cremos. A tolerância social é o compromisso de respeitar todas as pessoas mesmo que discordemos frontalmente de sua religião e ideias.

Assim, quando nos envolvemos com outras religiões e questões morais na feira ideológica, deve ser com cortesia e bondade. Temos de viver em paz com todos os indivíduos, mesmo com os de convicções e crenças divergentes. O testemunho cristão no meio social deve ser feito com cordialidade, mansidão e com respeito.

A discriminação religiosa ocorre quando não há tolerância legal e social. Entretanto, tolerância não significa concordar com o que os outros acreditam. Isso não é tolerância, é ditadura! Segundo D. A. Carson, em seu livro O Cristianismo confronta o pluralismo, “as melhores formas de tolerância, em uma sociedade livre e aberta, são as receptivas e tolerantes com as pessoas, mesmo quando há grande desacordo acerca das ideias delas”. Entretanto, hoje, a tolerância, em muitas sociedades ocidentais, foca cada vez mais as ideias, não as pessoas. O resultado de adotar essa nova tendência de tolerância

A tolerância pós-moderna, ao focar nas ideias, e não nas pessoas, reduz o âmbito de discussão e consequentemente da liberdade de pensamento, fazendo emergir um ambiente de diálogo restrito e pouco produtivo. Consequentemente, isso enfraquece a cultura, destrói valores e pavimenta a estrada da ignorância desmedida.

A LEI E O COMBATE À DISCRIMINAÇÃO

Além dos aspectos anteriormente apontados, devemos rejeitar o preconceito negativo e a discriminação, visto que a legislação brasileira coíbe esse tipo de prática. A Constituição Federal estabelece que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…” (art. 5o, caput, CF/88). Por esse motivo, a discriminação, o racismo e a injuria racial constituírem crime, conforme estabelece a legislação do país (Código Penal Brasileiro e Lei nº. 7.716/89).

A liberdade religiosa é igualmente um direito fundamental de valor inestimável, previsto na Carta Magna: “É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias” (art, 5o, VI, CF/88).

Em geral, a literatura sugere que a garantia da liberdade religiosa se desenvolve ou se estrutura em três aspectos: liberdade de crença, culto e organização religiosa.

A liberdade de crença possui uma dimensão subjetiva, referente à interioridade do indivíduo, e diz respeito ao direito de acreditar, não acreditar ou deixar de acreditar em alguma coisa. Envolve, portanto, a garantia de ser religioso e de aderir a qualquer religião de sua escolha, seja ela organizada ou não; assim como o direito de ser irreligioso, ateu ou agnóstico, ou seja, de não acreditar ou aderir a uma crença religiosa.

A liberdade de culto possui uma dimensão objetiva, referindo-se ao direito de exteriorização da crença, para realizar cultos, liturgias, cerimônias, cânticos e outros atos próprios da fé. A fim de resguardar esse direito o artigo 208 prevê o crime contra o sentimento religioso, assim tipificado: “Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir, ou perturbar cerimônia, ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato, ou objeto de culto religioso”.

Por fim, a liberdade de organização religiosa diz respeito ao direito de autodeterminação dos grupos religiosos para poderem se organizar. Envolve o direito de criação, estruturação, autorregulamentação e funcionamento da entidade religiosa , sem a intromissão do Poder Público, ressalvadas as previsões legais.

Assim, o direito à liberdade religião abarca não apenas o direito subjetivo de crer ou não crer em alguma coisa, doutrina ou confissão, mas também de expressar essa doutrina no ambiente público. Segundo Jonas Moreno a liberdade religiosa nasce da necessidade de publicização da fé, como “meio de transformação do homem, de sua realidade interior, que gera consequências exteriores, dentre as quais, a de tornar pública a sua fé para que outros tenham a oportunidade de verem as suas vidas transformadas”9.

Conclusão

Os crentes devem estar comprometidos com a defesa da liberdade religiosa em todos os seus níveis, não somente para poderem expressar a fé no Deus das Escrituras, mas também que os outros possam livremente exercer esse mesmo direito.

*Este subsídio foi adaptado de NASCIMENTO, Valmir. Seguidores de Cristo: Testemunhando numa Sociedade em Ruínas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, pp. 74-83.

Que Deus o(a) abençoe.

Refugiados: um problema da atualidade?

INTRODUÇÃO
I – O CONCEITO DE REFUGIADOS
II – O POVO DE ISRAEL COMO PEREGRINO EM TERRA ESTRANGEIRA
III – OS REFUGIADOS NA EUROPA E NO BRASIL
IV – OS REFUGIADOS E A IGREJA
CONCLUSÃO

“Primeiramente, devemos estabelecer o conceito de refugiado. De acordo com a Convenção de 1951 relativa ao Estatuto dos Refugiados, são refugiados as pessoas que se encontram fora do seu país por causa de fundado temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, opinião política ou participação em grupos sociais, e que não possa (ou não queira) voltar para casa. Posteriormente, conforme a ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), definições mais amplas passaram a considerar como refugiados as pessoas obrigadas a deixar seu país devido a conflitos armados, violência generalizada e violação massiva dos direitos humanos.

Refugiados, portanto, não são meros migrantes. Enquanto o refugiado abandona o seu país por causa de perseguição ou fundado temor, migrantes escolhem se deslocar em busca de melhores condições de vida, trabalho e educação. A ACNUR afirma que: “[…] para os governos, estas distinções são importantes. Os países tratam os migrantes de acordo com sua própria legislação e procedimentos em matéria de imigração, enquanto tratam os refugiados aplicando normas sobre refúgio e a proteção dos refugiados — definidas tanto em leis nacionais como no direito internacional”1 .

Embora o conceito de refugiado seja mais abrangente que migrante, a reflexão sobre a proteção bíblica dada ao estrangeiro é um importante ponto de partida para a análise da concepção cristã. Afinal, se Deus se importa com o estrangeiro, simplesmente por este encontrar-se distante da sua terra natal, seja qual for o motivo, quanto mais pelo refugiado — o estrangeiro que fugiu de seu país por causa de perseguição.

O POVO DE ISRAEL COMO PEREGRINO EM TERRA ESTRANGEIRA

Israel é o melhor exemplo bíblico de povo que viveu em terras estrangeiras. Jacó e sua família foram para o Egito2 numa época de extrema escassez, quando José ainda era vivo e governava aquela nação (Gn 46). Mais de duzentos anos após a morte de José e de seus irmãos, assumiu o trono egípcio um faraó que desconhecia os feitos do primeiro-ministro hebreu que havia livrado o Egito de uma grande fome (Êx 1.8).

Nesta época, os israelitas eram férteis e numerosos, enchendo aquele país. Receosos com o crescimento significativo desse povo estrangeiro, os egípcios passaram a subjugar os israelitas, colocando-os em trabalhos forçados na edificação de cidades, na agricultura e em outros serviços opressores (Êx 1.11—14). R. K. Harrison nos informa que a escravidão dos hebreus atingiu seu período mais crítico na construção em Pitom e Ramessés, sob o governo de Seti I e Ramsés II 3. O açoitamento era uma prática comum entre os egípcios. Segundo Harrison, “os espancamentos que os hebreus suportavam acrescentam um toque desafortunadamente autêntico à situação, pois este era o procedimento padrão na vida egípcia antiga para o encorajamento do progresso em qualquer tipo de trabalho”.

Ao explicar este contexto, Mark Dever observou com perspicácia que “o nacionalismo e a xenofobia, com frequência, levam a atitudes desagradáveis e feias, principalmente quando a população se sente ameaçada ou até subjugada pelo crescimento de uma minoria 4. Por mais numerosos que possam ser, estrangeiros são sempre vulneráveis, porquanto não detêm poder político e legal de uma dada nação.

O Egito, portanto, não era local de refúgio, mas de opressão e trabalho penoso. Segundo Victor Hamilton, a submissão dos hebreus a esse tipo de trabalho tinha a intenção de “desmoralizá-los, convencê-los de sua posição de escravos e reduzir ao máximo qualquer possibilidade de insurreição” 5.

Deus manda Israel proteger o estrangeiro

Por esse motivo, sempre que Deus exortava a nação israelita sobre a necessidade de proteção e cuidado ao estrangeiro, recordava do período tenebroso que eles experimentaram no Egito. Ao trazer-lhes à lembrança o período de peregrinação, o Senhor queria que eles se colocassem no lugar do estrangeiro, com empatia, a fim de entender as suas dificuldades.

Os gentios não podiam ser explorados ou maltratados, e a Lei lhes assegurava uma vida digna. O estatuto divino para o estrangeiro previa vários dispositivos de proteção, começando pela necessidade de não os oprimir e amá-los (Êx 23.9; Lv 19.33,34). A Lei permitia a colheita remanescente aos estrangeiros (lei da respiga), juntamente com órgãos e viúvas (Dt 24.19-22), e também a isonomia com os hebreus (Êx 12.49). Em um tempo em que os estrangeiros eram considerados inimigos, Deus instrui seu povo ao acolhimento e cuidado, agindo com compaixão. Afinal, de acordo com salmista, o Senhor guarda o peregrino (Sl 146.9).

Ao mesmo tempo, os profetas do Antigo Testamento vaticinaram contra a discriminação ao estrangeiro, como é o caso de Isaías (Is 56.3-6). Jeremias diz: “Se não oprimirdes o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, nem derramardes sangue inocente neste lugar, nem andardes após outros deuses para vosso próprio mal, eu vos farei habitar neste lugar, na terra que dei a vossos pais, de século em século” (Jr 7.6,7). Zacarias e Malaquias, igualmente, bradaram contra a opressão aos estrangeiros (Zc 7.10; Ml 3.5).

Isso nos leva diretamente à seguinte pergunta: Qual a razão para Deus se preocupar tanto com o estrangeiro?

Tal se deve à fragilidade social e psicológica daqueles que se encontram nessa situação, motivo porque a proteção a esse grupo é uma maneira de se fazer justiça. Se justiça, como vimos no capítulo anterior, envolve o cuidado com os vulneráveis, então isso também se aplica aos estrangeiros. Ao longo das Escrituras vemos Deus defendendo o quarteto da vulnerabilidade 6: órfãos, pobres, viúvas e estrangeiros (Zc 7.9,10). Timothy Keller afiança que nas sociedades agrárias pré-modernas, esses quatro grupos não detinham poder social. “Mal tinham o que comer e, se houvesse fome na terra, invasão ou até mesmo distúrbio social, morreriam em questão de dias”7 . Hoje, prossegue Keller, “esse quarteto abrangeria refugiados, trabalhadores imigrantes, os sem-teto, e os muito idosos e pais/mães que cuidam sozinhos dos filhos” 8.

Viver longe do lar e tendo de enfrentar barreiras geográficas, culturais, sociais, linguísticas, ao tempo em que sofre discriminação e preconceito étnico, inegavelmente é uma situação que evoca cuidados especiais.

OS REFUGIADOS NA EUROPA E NO BRASIL

Reportagem da Folha de S. Paulo 9, de 21 de fevereiro de 2017, noticiou que setenta e quatro corpos de migrantes foram levados pela maré até uma praia na costa da Líbia. Eram todos adultos, em sua maioria homens vindos de países da África Subsariana, tentando atravessar o Pacífico em busca de asilo na Europa. Tal notícia é apenas um pequeno retrato da crise contemporânea de refugiados, a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial.

Em várias partes do mundo milhares de pessoas fogem de seus países em busca de abrigo em outras nações, com famílias inteiras deixando seus lares e arriscando suas vidas em viagens e travessias perigosas, a pé ou pelos mares. Os números são alarmantes. O Relatório “Tendências Globais” elaborado em 2015 pela ACNUR/ONU10 apontou um total de 65,3 milhões de pessoas deslocadas por guerras e conflitos até o final daquele ano. Do total de 65,3 milhões, 12,4 milhões são novos deslocados por conflitos e perseguições apenas em 2015. Esse conjunto se divide entre 8,6 milhões de pessoas forçadas a abandonar seus lares e a mudar-se para outros lugares de seu país e 1,8 milhões que tiveram de cruzar as fronteiras. O universo de 65,3 milhões inclui 21,3 milhões de refugiados ao redor do mundo, 3,2 milhões de solicitantes de refúgio e 40,8 milhões deslocados que continuam dentro de seus países.

De acordo com o relatório, com o aumento de 2,6 milhões de casos apenas em 2015, na comparação com os dados de 2004, é possível concluir que o mundo assiste a um recorde de deslocados internos. Entre os países analisados pelo relatório “Tendências Globais”, alguns se destacam por serem a principal origem de refugiados no mundo. A Síria (com 4,9 milhões de refugiados), o Afeganistão (com 2,7 milhões) e a Somália (com 1,1 milhão) totalizam mais da metade dos refugiados sob o mandato do ACNUR. Os países com maior número de deslocados internos são a Colômbia (6,9 milhões), a Síria (6,6 milhões) e o Iraque (4,4 milhões). O Iêmen, em 2015, foi o país que mais registrou novos deslocados internos — 2,5 milhões de pessoas ou 9% de sua população.

Refugiados na Europa

O continente europeu é uma das regiões mais afetadas pela crise de refugiados. Tal se deve ao crescente número de migrantes que chegam às suas fronteiras em busca de abrigo, oriundas, em sua maioria, do Oriente Médio e da África, especialmente em decorrência do terrorismo islâmico que impera nestas regiões, como é o caso da Síria (Estado Islâmico), Afeganistão (Taliban), Somália (milícia islâmica Al-Shabaab, filiada à Al-Qaeda) e Nigéria (Boko Haram).

Na Síria, logo após o advento da Primavera Árabe no final de 2010 — uma onda revolucionária de manifestações e protestos que abalou o Oriente Médio e o norte da África, desencadeou em março do ano seguinte a guerra civil entre o governo de Bashar al-Assad e os grupos insurgentes Exército Livre da Síria e a frente al-Nusra, ligada à Al-Qaeda. O Estado Islâmico aproveitou-se da ocasião para ocupar território e intensificar ainda mais a brutalidade e a sanguinolência.

A guerra desencadeou a saída em massa do povo sírio em busca de refúgio em países vizinhos. A ONU estima que a guerra tenha deixado cerca de 400 mil mortos e provocado um êxodo de mais de 4,8 milhões de pessoas do país — a maioria mulheres e crianças, colocando sob pressão os países vizinhos — Líbano, Jordânia e Turquia.

No Afeganistão, o grupo terrorista islâmico Taliban tenta recuperar seu poder perdido desde a ocupação militar norte-americana, após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Em 2015, um total de 3.545 civis morreram e 7.457 ficaram feridos no Afeganistão por causa da guerra 11. Diante desse quadro, muitos afegãos partem em busca de refúgio na Europa.

Com efeito, na tentativa de atravessar os oceanos e chegarem à Europa, famílias inteiras arriscam suas vidas em viagens a bordo de embarcações clandestinas. Muitos não completam o percurso. Outros tantos desaparecem. Enquanto isso, as nações europeias ainda não sabem como lidar com a crise migratória de refugiados.

Refugiados no Brasil

O Brasil também recebe refugiados do mundo todo. Segundo estatísticas, o número total de solicitações de refúgio aumentou mais de 2.868% entre 2010 e 2015. Entre as principais causas dos pedidos de refúgio estão a violação de direitos humanos, perseguições políticas, reencontro de famílias e perseguição religiosa. A grande maioria dessas pessoas advém da África, Ásia (inclusive Oriente Médio) e do Caribe.

De acordo com o CONARE (Comitê Nacional para Refugiados), o Brasil possuía em 2016 mais de 8.863 refugiados reconhecidos, de 79 nacionalidades distintas (28,2% deles são mulheres) — incluindo refugiados reassentados. Os principais grupos são compostos por nacionais da Síria (2.298), Angola (1.420), Colômbia (1.100), República Democrática do Congo (968) e Palestina (376) 12.

Conclusão

Enquanto arauto da justiça, a igreja também pode agir estrategicamente no enfretamento desse problema social, alçando sua voz profética para que o assunto seja devidamente tratado pelo poder público. David Platt 13 recorda, com efeito, que “temos diante de Deus, como cidadãos de um governo, a responsabilidade de trabalhar juntos para criar e aplicar leis justas aos imigrantes”. Em suas palavras, “entre outras coisas, tais leis exigem a segurança de nossas fronteiras, a responsabilidade de nossos donos de empresas por práticas de contratação e a adoção de medidas essenciais que garantam aos contribuintes do país um tratamento justo no que se refere ao pagamento de impostos”. Assim, prossegue Platt, “como cidadãos de um país, temos a responsabilidade perante Deus de trabalhar juntos para refutar e pôr fim a leis injustas que oprimem os imigrantes”.

Igualmente, a comunidade cristã pode contribuir para a ajuda dos refugiados mediante o apoio a organizações sérias que trabalham nessa causa, inclusive levantar recursos para a ajuda humanitária. No Brasil, a Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure)14 tem desenvolvido um trabalho de relevância pública, com ações que visam à proteção aos refugiados e a promoção da ajuda humanitária. A entidade ajudou a fundar no Brasil a Frente Parlamentar Mista para Refugiados e Ajuda Humanitária — FPMRAH. A primeira contribuição da organização foi intermediar a vinda para o Brasil de uma família de paquistaneses, cujo chefe de família havia sido condenado à morte sob acusação de ter desrespeitado o alcorão e ser encaixado na lei de blasfêmia do Paquistão, pela qual nem mesmo o governo local poderia ajudar a livrá-lo da pena de morte.

A questão dos refugiados é um tema atual e complexo. Não obstante, considerando que o Senhor é um alto refúgio para o oprimido (Sl 9.9), a comunidade cristã deve ser uma comunidade de refúgio para os estrangeiros perseguidos. Sem desconsiderar os aspectos que envolvem a segurança nacional e a política migratória, aos cristãos cabe, do ponto de vista prático, dar acolhimento àqueles que precisam de proteção.

*Este subsídio foi adaptado de NASCIMENTO, Valmir. Seguidores de Cristo: Testemunhando numa Sociedade em Ruínas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, pp. 63-73.

 


1 ACNUR. Refugiado ou Migrante? O ACNUR incentiva a usar o termo correto. Disponível em: http://www.acnur.org/portugues/noticias/noticia/refugiado-ou-migrante-o-acnur-incentiva-a-usar-o-termo-correto/. Acesso em 01/mar/17.
2 Apesar do fato de que muitos estudiosos tentaram refutar a historicidade de uma permanência prolongada de Israel em no Egito, as condições históricas que existiam do século XIX a.C no Oriente Médio e no Egito estão de pleno acordo com a tradição bíblica a este respeito.” HARRISON, R. K. Tempos do Antigo Testamento: um contexto social, político e cultural. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 118.
3 HARRISON, 2010, p. 119.
4 DEVER, M. A mensagem do Antigo Testamento: uma exposição teológica e homilética. Rio de Janeiro; CPAD, 2008, p. 91.
5 HAMILTON, V. P. Manual do Pentateuco. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, p. 156
6 Termo cunhado por Nicholas Wolterstorff e referido por Keller (KELLER, 2006, p. 25).
7 KELLER, 2006, p. 26.
8 KELLER, 2006, p. 26.
9 Corpos de 74 migrantes são encontrados em praia na Líbia. Disponível em: http://www1.folha. uol.com.br/mundo/2017/02/1860620-corpos-de-74-migrantes-sao-encontrados-em-praia-na-libia.shtml
10 ACNUR. Tendências Globais sobre refugiados e outras populações de interesse do ACNUR. Disponível em: http://www.acnur.org/portugues/recursos/estatisticas. Acesso em 03/mar/17.
11 Mais de 3,5 mil civis morreram em guerra no Afeganistão em 2015. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2016/02/mais-de-3-5-mil-civis-morreram-em-guerra-no-afeganistao-em-2015-4974876.html. Acesso em 01/mar/17.
12 ACNUR. Dados sobre refúgio no Brasil. Disponível em: http://www.acnur.org/portugues/recursos/estatisticas/dados-sobre-refugio-no-brasil/. Acesso em 01/mar/17.
13 PLATT, 2016, p. 235-236.
14 ANAJURE. Estão lançados oficialmente o IPP/Brasil e a Frente Parlamentar Mista para Refugiados e Ajuda Humanitária (FPMRAH). Disponível em: https://www.anajure.org.br/estao-lancados-oficialmente-o-painel-internacional-de-parlamentares-para-a-liberdade-religiosa-ippbrasil-e-a-frente-parlamentar-mista-para-refugiados-e-ajuda-humanitaria-fpmrah. Acesso em 03/mar/17.

A Cosmovisão Cristã em um Mundo de Vãs Ideologias

INTRODUÇÃO
I – UM MUNDO MOVIDO POR IDEAIS E IDEAS
II – CARACTERÍSTICAS DAS IDEOLOGIDAS CONTRÁRIAS AO EVANGELHO
III – MENTES RENOVADAS PARA UM MUNDO CHEIO DE IDEOLOGIAS
CONCLUSÃO

“Em uma época carregada de ideologias, tanto antigas quanto novas, como o cristão pode escutar a serena voz de Deus e discernir a sua perfeita vontade quando tantas vozes humanas invadem o nosso espaço e tentam nos convencer de que são elas — e não o Evangelho — a resposta para os problemas do mundo?
Sabendo que a sociedade atual é dominada por sistemas de pensamentos incompatíveis com a fé cristã, iremos refletir a respeito do conceito de ideologia e como formar uma mentalidade essencialmente cristã, uma visão de mundo abrangente, pela qual possamos discernir as vozes do nosso tempo e refutar os sistemas de ideias incompatíveis com as Escrituras.

Continuar lendo “A Cosmovisão Cristã em um Mundo de Vãs Ideologias”