Seja apenas o você que Deus quer

Um dos principais ingredientes da infelicidade humana é a comparação com o sucesso profissional dos outros.

Esse tipo de angustia pavimenta o caminho da perda de identidade e do propósito da vida.

Tomas Halík, em A Noite do Confessor, nos fornece uma boa sugestão para vencer essa obsessão:

“Dá-me um grande prazer ver um bom político*, diplomata, bispo, ator, advogado, psicoterapêutico, jornalista ou pai de uma grande familia; uma das razões é que se alguém desempenha todas essas funções, e as desempenha bem, eu tenho a tranquilizante e libertadora confirmação de que já não preciso ser eu próprio a ocupar-me disso. Ajuda-me a evitar “olhar para trás”, e libertar-me de pensamentos de que também eu poderia ter sido capaz de desempenhar algumas dessa funções, e talvez até nem fosse mal no seu desempenho. Estou aprendendo a largar alegremente e a tomar consciência de que uma ‘pessoa não pode ser tudo’; só Deus é um ser que aplica plenamente todas as suas potencialidades. Deus vai tornando o meu caminho estreito, permitindo-me assim compreender (talvez) com maior precisão aquilo que Ele verdadeiramente quer de mim, aquilo que não posso delegar a mais ninguém: apenas ser eu. Porque se eu falhasse nisso, esse seria o único lugar que ficaria realmente vazio”.

Deixe esse segredo martelar em sua mente: aprenda a largar alegremente a obsessão por “aquilo que não lhe pertence” e a tomar consciência de que uma ‘pessoa não pode ser tudo’; só Deus é um ser que aplica plenamente todas as suas potencialidades.

Medite nisto!

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Tempo Presente

Valmir Nascimento

Dentre as fases do tempo, o presente é o mais breve. Ele vive entre o passado e o futuro, espremido entre o que o foi e o que há de vir.

Mas, o que é o presente? Seria ele o dia que chamamos hoje? Mas, este também tem o seu passado e o seu futuro, dividido pelas horas e minutos que passam entre os nossos dedos e aqueles que rapidamente inauguram um novo instante.

Como disse Agostinho, “o tempo [presente] voa tão rapidamente do futuro ao passado que não tem nenhuma duração. Se a tivesse, dividir-se-ia em passado e futuro. Logo, o presente não tem nenhum espaço”.

Para o bispo de Hipona, a alma humana é como uma ampulheta cuja âmbula superior detém todo o tempo futuro que se torna presente na alma ao passar pelo exato meio do orifício que o faz passar para a âmbula inferior, de futuro para passado.

Reside aqui o desafio de viver no tempo presente: aproveitar sabiamente o instante de cada grão de areia que passa pelo divisor entre o futuro e o passado.

O presente, afinal, não é contado no relógio, mas na alma; não pode ser medido pela sua duração, e sim pela experiência que nos marca e pela intensidade com que o vivenciamos.

Nisso também reside a beleza do presente: cada passagem da areia pelo centro da ampulheta é único, pois, diferentemente do objeto, a ampulheta da vida não será virada.

Viva cada pedacinho da sua existência com singularidade e intensidade, pois cada grão que se foi não voltará mais.

Fé: simples, mas não infantil

Geralmente, quando começamos a debater algum tema teológico mais complexo alguém logo brada: A fé é algo simples, e por isso não precisa de grandes investigações. A esses precisamos lembrar que a fé cristã é realmente simples, mas não infantil.

Aqueles que geralmente usam esse jargão anti-intelecual se escondem por detrás da capa da ignorância e falta de aprofundamento teológico. A fé cristã é simples no sentido de ser compreensível a toda e qualquer criatura. Todavia, ela não deve ser uma fé infantilizada.

Se por um lado as Escrituras enfatizam a necessidade de sermos como as crianças (Mt 18.4), no que tange à singeleza de coração e humildade, por outro, o texto sagrado adverte contra a meninice intelectual (1Co 14.20) e enfatiza a necessidade de crescimento (1 Pe 2.2).

Cisne negro: porque há tantos crentes loucos?

Assisti ao filme Cisne Negro. Confesso que o longa não me encantou, apesar da atuação extraordinária de Natalie Portman (que inclusive levou o Oscar de melhor atriz de 2011). Mas, algumas reflexões me vieram à mente após o fim.

A trama gira em torno de Nina Sayers (Natalie Portman), uma bailarina que se vê diante da chance de interpretar o papel principal em uma montagem de “O Lago dos Cisnes”, de Piotr Ilitch Tchaikovsky. Nina é perfeita tecnicamente, o que a qualifica para interpretar o cisne branco, porém, não apresenta a espontaneidade necessária para vivenciar o cisne negro, que exige uma postura de sedução e desprendimento.

Diante desse desafio de superação, insegura e sem amigos, a bailarina ingressa numa espiral psicótica de busca pela perfeição e na tentativa de mostrar para seu coreógrafo que é capaz de expor seu lado mais selvagem, culminando então numa indefinição entre o sonho e a realidade e uma duplicidade de comportamento. Desse modo, seu lado negro passa a se sobrepor sem que ela possa controlá-lo.

A reflexão que faço sobre o filme é exatamente sobre a duplicidade de personalidade de Nina: o cisne branco e o negro que se enfrentam. De um lado, a perfeição, o controle e a pureza e do outro a sedução e a sensualidade.

Paulo falou de certa luta no âmago do nosso ser. Ele dizia:

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está.Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim”. (Rm 7.18-20).

Essa é a batalha interior do cristão; entre o homem natural e o espiritual; entre o cisne branco e o cisne negro.

Naturalmente, essa luta por si só não poderia levar o cristão a uma dupla personalidade psicótica. Isso porque, conscientes de nossas falhas deveríamos viver pela graça de Cristo, aquele que perdoa nossas falhas e nos afasta do erro.

Entretanto, de forma inevitável muitos ingressam na mesma espiral lunática de Nina por uma razão mais ou menos simples: buscam a perfeição sozinhas tendo o legalismo como parâmetro. E quando percebem que são incapazes de agir unicamente como o cisne branco, por sua própria força, enveredam-se para o outro lado obscuro.

Mas, o que é pior: apresentam-se como cisnes brancos na igreja, porém, agindo como cisnes negros em outros lugares.

Isso me faz lembrar a existência de muitos crentes em tratamento em manicômios. Pessoas que se enveredaram para a loucura, psicose, esquizofrenia etc. Sem desprezar os diversos fatores que podem levar a tal situação, penso que um dos elementos que pode provocar esse desvio mental é exatamente a postura de busca da perfeição por meio do legalismo. Afinal, quando a pessoa observa o elevado padrão moral do cristianismo e, desprezando a graça de Deus, percebe que não consegue atingi-lo, se vê num beco sem saída; quando então a mente entra em colapso.

Guardadas as devidas proporções, o coreografo da bailarina disse algo que merece consideração: “Perfeição não é só sobre controle; é também saber abandonar-se” . Para nós: Perfeição não é só sobre controle; é também saber abandonar-se nos braços e na graça de Deus”.

Por Valmir Nascimento