A arte pós-moderna e a perspectiva cristã

por César Moisés Carvalho
 
Já vai longe o tempo em que a estética tinha uma base comum que pretendia ser o reflexo da simetria do universo. O que se vê atualmente é a banalização de qualquer expressão artística que tenha a pretensão de retratar a ordem que pressupunha ser absoluta no cosmo. Foi assim durante todo o longo período do domínio imperial macedônio. Mas como nada dura para sempre e, para tomar emprestado o aforismo do filósofo pré-socrático Heráclito, a única coisa permanente é a mudança, ela chegou e, infelizmente, com ela foi por água abaixo qualquer noção de beleza, arte ou estética como extensão do sistema que rege o universo.1
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Quando tudo é relativo, tudo é perdoado

O canibalismo é relativo

por João Pereira Coutinho

Li com interesse a “gaffe” do premiê da Nova Zelândia. Relembro os pormenores: o governo do país mantém negociações com as tribos indígenas para devolver territórios que esses povos consideram sagrados.

Foi nesse contexto que o premiê John Key resolveu fazer uma piada, confessando-se aliviado por não ter que jantar com os povos Maori. “Se eu fosse jantar com eles”, afirmou Key, “o mais provável era ser eu a refeição.” Continuar lendo “Quando tudo é relativo, tudo é perdoado”

Música cristã: os fins, os meios e a missão

por Joêzer Mendonça

Na dinâmica do mundo moderno há uma pergunta sempre recorrente: como tornar o evangelho de Cristo pertinente para a “sociedade do espetáculo”, para uma juventude bombardeada por um fluxo incessante de imagens e signos atraentes e, muitas vezes, com claros incentivos anticristãos?

Para atender às expectativas modernas, muitos líderes e músicos cristãos inserem-se na corrente do Pragmatismo. Isto é, usam novas estratégias, empregam novos meios para alcançar os velhos fins. Entenda-se “velhos fins” por tentativa honesta de divulgar a mensagem cristã, mas também, em outros casos, por velhas finalidades de enriquecimento através da boa-fé alheia. Apesar disso, segundo Wolgang Stefani,“ninguém pode duvidar da sinceridade daqueles que advogam essa abordagem [o pragmatismo], nem depreciar sua ‘utilidade’ e ‘resultados’ , e deve-se considerar seus resultados significativos (Música Sacra, Cultura e Adoração, p. 13).

Na opinião de Calvin Johannson, há falhas mais sérias na abordagem pragmática, como:

1) a desconsideração de normas e padrões resulta na transferência do controle da qualidade e da legitimidade para o gosto do público;

2) a utilização da música como ferramenta manipuladora em substituição a ação do Espírito Santo.

Considerações quanto à opinião de número 1:

a) Não se pode esquecer que Lutero (no século XVI), Lowell Mason e Ira Sankey (ambos no século XIX) promoveram mudanças significativas na música sacra concedendo espaço justamente ao “gosto” da congregação. Lutero, por exemplo, aproximou a música sacra do canto do homem comum de sua época, o qual não sabia latim e nem saberia fazer os tantos melismas do canto da missa católica.

b) É fácil perceber um discurso marcado pelo preconceito social ao se definir o “gosto do público” como o responsável pela perda de qualidade musical. Johannson afirma que tal “gosto” não pode ser legitimado. Mas quem é o responsável por legitimar a estética e o gosto musical? Os privilegiados pelo acesso à educação musical? As classes modeladas pelo cultivo do saber europeu?

Quanto à opinião de número 2, ressalto a quantidade de palestras e sermões que empregam a música como ferramenta para influenciar escolhas e decisões (qual pianista de igreja não ouviu o pedido para tocar uma suave música de fundo na hora final de um culto?). A afirmativa de Johannson traduz a famosa (e discutível) dicotomia entre razão e emoção, sugerindo uma livre escolha racional vinda exclusivamente pela palavra, em contraste com uma submissão emocional causada pela música.

Esse discurso está presente em muitas palestras bem-intencionadas que acabam sendo descuidadas na sua abordagem dos efeitos psicofisiológicos da música, que tratam o ser humano (em especial, a juventude) como objeto de fácil hipnose musical e moral e apontam mais proibições do que orientam positivamente, além de deixarem todas as respostas para a ciência.

Por outro lado, há diversos grupos musicais conhecidos pelos seus momentos de extremada e planejada comunhão. Em alguns momentos, nota-se claramente o estímulo ao êxtase místico ou fuga dos níveis imediatos da consciência, o que é realizado por meio:

– do estímulo à forte concentração (o fechar de olhos durante a canção),
– da alteração da fala (indo da voz embargada ao falar em línguas desconhecidas),
– da performance física (a expressão facial de contrição e o gestual dramático do corpo),
– da repetição prolongada do refrão das canções e das orações de intercessão com um fundo instrumental).

O Esteticismo é um ponto de vista que considera que os valores estéticos garantem a qualidade e a arte necessária para uma aceitável adoração a Deus (Música Sacra…, p. 11). Para Wolfgang Stefani, porém, a medida do que é esteticamente superior tende a ser determinada subjetivamente. Ademais, é difícil precisar o que é de alta qualidade artística. Essa dificuldade se deve a maior valorização das identidades culturais locais e ao caráter de mudança dos padrões aceitáveis na música cristã.

O Esteticismo pode ser nefasto quando um produtor musical insere um certo arranjo ou um cantor utiliza determinado recurso vocal como artifício exibicionista. Nelson Freire, um dos maiores pianistas da atualidade, disse que “o mais importante é a música e não o que eu faço com ela”. Assim, o cuidado exagerado com a estética da música pode se tornar prejudicial quando a mensagem desaparece diante do marketing vocal e instrumental em torno da música. De outro lado, há aqueles que acreditam que o único estilo aceitável é a música erudita europeia até o século XIX. Essa seria, para eles, a música do céu, ou no mínimo a mais aproximada.

Volto à pergunta inicial: Como dar sentido ao evangelho de Cristo no mundo moderno sem recorrer aos recursos de atração secularizantes?

Alguns cantores se acomodam no Pragmatismo hipervalorizado, em que os fins permitem o vale-tudo musical e litúrgico. Outros se apoiam no Esteticismo deturpado, em que o fim é o próprio meio, ou seja, a música e o músico. Infelizmente, às vezes o primordial é esquecido: o sentido de missão.

É preciso estar atento às táticas apelativas do emocionalismo. É preciso estar vigilante quanto às estratégias modernosas de assimilação da música pop e, assim, evitar exageros quanto à adoção natural de estilos contemporâneos. Mas, sobretudo, é tãonecessário para alguns despojar-se das muletas da autopublicidade artístico-musical quanto é urgente para todos desvencilhar-se da carapaça do criticismo autoritário e vestir o manto da orientação bíblica construtiva.

Joêzer Mendonça, Doutorando em música pela UNESP. Escrevo sobre atualidades e antigüidades relacionadas à música, mídia, religião e cultura.

Fonte: Nota na Pauta

A igreja na cultura emergente

Estou dando algumas folheadas no livro A igreja na cultura emergente: cinco pontos de vista, da Editora Vida. A obra, organizada por Lernard Sweet, apresenta o debate entre cinco escritores cristãos tendo como assunto principal a relação entre igreja  e cultura. Os “debatedores” são Andy Crouch, Michael Horton, Frederica Mathewes-Green, Erwin Raphael McManus e, é claro, Brian McLaren.

O livro é interessante porque foi escrito de modo dinâmico. Cada autor, após escrever o seu capítulo, submeteu-o à análise dos demais, os quais tecem suas respectivas críticas/elogios em determinados pontos. Como era de se esperar, em algumas oportunidades é possível vislumbrar algumas fagulhas na discussão.

O debate enfoca qual deve ser a postura da igreja em relação à cultura contemporânea, questionando a possibilidade/impossibilidade de mudança de método/forma/estilo e mudança de mensagem/conteúdo/essência. Com isso em mente, foram utilizados quatro clareiras (figuras) a fim de representar os vários tipos de relacionamento entre igreja e cultura. A síntese de cada clareira, segundo o organizador, é assim descrita:

JARDIM: se utilizam apenas de sementes testadas e aprovadas que receberam como herança. Fazem de tudo para conservar a pureza dessas sementes e para passar adiante os rituais de plantio da forma como os receberam. Esta é a clareia da “preservação da mensagem/preservação do médoto.

PARQUE: se utilizam apenas das sementes recebidas dos seus antepassados, mas pesquisam novos métodos para o plantio. Essa é a clareia da “preservação da mensagem/evolução dos métodos”.

VALE: sentem-se à vontade para aperfeiçoar suas sementes e adaptá-las para atender aos desafios dos novos ambientes. Mas, a exemplo dos primeiros, plantam as novas sementes em canteitos tradicionais e com arados igualmente tradicionais. Essa é a clareira da “evolução da mensagem/preservação dos métodos”

CAMPINA: os que estão na campina estão prontos para aumentar os estoque das sementes, até mesmo para lançar mãos de novas técnicas de fertilização, cultura de produtos híbridos, hidropônicos etc. Além disso, procuram usar tratores sofisticados, colheitadeiras com tecnologia de ponta e outros equipamentos de última geração. Essa é a clareira da “evolução da mensagem/evolução dos métodos”.

A pergunta é exatamente esta: Qual clareira utilizar?