Graça Preveniente


por Valmir Nascimento

Graça preveniente é o termo teológico que explica a forma como Deus capacita o homem previamente para que possa atender ao chamado da salvação. Assim como muitas outras doutrinas bíblicas, a exemplo da Trindade e da depravação total, o termo “graça preveniente” não se encontra expressamente[1] nas Escrituras, mas o ensino sim, visto tratar-se de uma categoria bíblica tácita, evidenciada por meio da interpretação sistemática do Texto Sagrado.

É importante dizer que o estudo sistemático das convicções cristãs, isto é: a reflexão teológica, tem como fonte primária as Escrituras Sagradas; no entanto, historicamente o cristianismo tem se valido também de três fontes e normas secundárias para contribuir com a hermenêutica bíblica: a tradição, a razão, e a experiência. Conforme Olson, o Sola Scriptura é o princípio ideal que capta e expressa corretamente a convicção de que a Bíblia é a regra normativa (norma normans) e a fonte mais importante para determinar a correção em todos os assuntos da fé e vida cristãs.

A Escritura é a autoridade máxima para a fé e prática cristãs por ser inspirada por Deus e porque é o texto constitutivo da identidade cristã em termos de fé[2]. Não obstante, ela precisa ser interpretada, e por isso é objeto de contínua reflexão na história do cristianismo. Esse processo de interpretação é realizado com os olhos voltados para a tradição e por meio da razão (princípios lógicos). Além disso, a experiência entra em cena não como fonte ou norma reguladora da fé, mas como guia a ser considerado, em conjunto com a tradição e com a razão.[3]

Essa observação é importante para refutar a alegação de oponentes da Teologia Arminiana de que a graça preveniente serve para atenuar “as lacunas teológicas do arminianismo com a pecaminosidade de todos os homens advinda de Adão”[4]. Toda elaboração sistemática busca estudar as Escrituras a partir de pressuposições básicas, a fim de oferecer um ensino ordenado e todo consistente. Nesse prisma, a graça preveniente não pretende atenuar a suposta lacuna dos arminianos acerca da pecaminosidade humana. Primeiro porque, como veremos, o arminianismo tem um sério compromisso com o ensino bíblico da Queda do homem no pecado e as suas consequências espirituais.

Segundo, a graça preveniente não é uma doutrina de remendo, tentando se adequar aos demais ensinamentos dessa vertente cristã. A doutrina é atraente (conforme reconhecem até mesmo alguns calvinistas) justamente por oferecer uma visão plausível e biblicamente consistente da ação de Deus para o resgate do pecador. A teologia sistemática simplesmente valida esse ensinamento à luz das Escrituras, fazendo com que o entrelaçamento das passagens bíblicas forme um mosaico doutrinário coeso e bem articulado, a partir da premissa de que “a Bíblia interpreta a si mesma”.

A doutrina da graça preveniente está dentro do retrato maior das Escrituras, a partir da compreensão do trabalho divino para a salvação do homem[5]. Brian Shelton, com razão, afirma que a teologia sistemática examina cada doutrina à luz do maior testemunho das Escrituras para maior coerência ou correção. “Esta é a melhor maneira de testar a nossa interpretação de qualquer doutrina bíblica, incluindo o de nossa capacidade restaurada a crer em Cristo”[6].

Ao captar essa perspectiva H. Ray Dunning aponta, então, que a graça preveniente “não é um termo bíblico, mas uma categoria teológica desenvolvida para capturar um motivo bíblico central”[7]. Certamente, alguns calvinistas podem objetar essa afirmação, afirmando que o ensinamento está mais baseado na coerência lógica do que nas Escrituras. Antes de afirmarem isso, talvez seja interessante olharem para suas próprias construções teológicas e conceitos sistemáticos, a fim de perceberem que termos como “graça comum” “eleição incondicional” e “graça irresistível”, por exemplo, também não se acham no corpo da Escrituras; fazem parte igualmente de uma categoria teológica abrangente, na tentativa de explicar uma perspectiva teológica em particular, fundamentando-se nos decretos de Deus.

A questão é saber, em última análise, qual desses sistemas doutrinais encontra respaldo na leitura abrangente das Escrituras, conectando os vários ensinamentos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Entendemos que a graça preveniente possui esse respaldo, como o resultado da análise cumulativa do texto bíblico, tendo como parâmetro as seguintes verdades: a Queda de Adão; a redenção proporcionada por Deus em Cristo; a incapacidade do homem de, e por si mesmo, voltar-se para Deus; a graça de Deus trazendo salvação a – todos –  os homens; o convite para que o homem se arrependa de seus pecados e creia (tenha fé) na obra de Cristo; a atuação de Deus para o convencimento e preparação do coração do pecador e; a possibilidade de resistência pelo homem.

Uma vez harmonizadas essas verdades bíblicas deixam entrever a veracidade do conceito teológico da graça preveniente.

Etimologicamente, advém do latim gratia praevenians (prae = antes de + venire = venha), ou seja, “graça que vem antes”. Antes de quê? Antes de qualquer coisa no processo de salvação. Daí porque Jeff Paton recorda que muitos outros termos poderiam ser usados para descrever esta obra de Deus, como iniciativa divina, graça anterior e graça preparatória[8].

Em uma definição inicial, portanto, a graça preveniente é o meio pelo qual Deus, antes de qualquer ação humana, atrai graciosamente o pecador e o capacita espiritualmente para que se arrependa e se converta a Cristo. Ela não salva por si só[9], mas apenas permite o arrependimento, criando uma condição favorável para que todos venham a crer (Jo 3.16).

O expositor bíblico Willian Burton Pope afirma que a graça preveniente “é a única causa eficiente de todo o bem espiritual no homem; do começo, continuação e consumação da religião na alma humana”[10].

Roger Olson[11] expressa que a graça preveniente é a poderosa, porém resistível, atração de Deus para que o pecador se arrependa. Assim, uma pessoa é salva porque Deus iniciou uma relação e habilitou tal pessoa a responder livremente com arrependimento e fé. Desse modo, ninguém pode ser salvo sem o auxílio sobrenatural, do início ao fim, do Espírito Santo, bastando que a pessoa não lhe resista.

Com seu estilo contundente e peculiar A. W. Tozer escreveu:

O evangelho nos ensina a doutrina da graça preveniente, que significa simplesmente que, antes de um homem poder buscar a Deus, Deus tem que buscá-lo primeiro.

Para que o pecador tenha uma ideia correta a respeito de Deus, deve receber antes um toque esclarecedor em seu íntimo; que, mesmo que seja imperfeito, não deixa de ser verdadeiro, e é o que desperta nele essa fome espiritual que o leva à oração e à busca.

Procuramos a Deus porque, e somente porque, ele primeiramente colocou em nós o anseio que nos lança nessa busca. “Ninguém pode vir a mim”, disse o Senhor Jesus, “se o Pai que me enviou não o trouxer” (Jo 6. 44), e é justamente desse trazer preveniente, que Deus tira de nós todo vestígio de mérito pelo ato de nos achegarmos a Ele. O impulso de buscar a Deus origina-se em Deus, mas a realização do impulso depende de o seguirmos de todo o coração. E durante todo o tempo em que o buscarmos, já estamos em sua mão: “… o Senhor o segura pela mão”. (Sl 37. 24).

Nesse “amparo” divino e no ato humano de “apegar-se” não há contradição. Tudo provém de Deus, pois, segundo afirmava von Hügel, Deus é sempre a causa primeira. Na prática, entretanto (isto é, quando a operação prévia de Deus se combina com uma reação positiva do homem), cabe ao homem a iniciativa de buscar a Deus. De nossa parte deve haver uma participação positiva, para que essa atração divina possa produzir resultados em termos de uma experiência pessoal com Deus. Isso transparece na calorosa linguagem que expressa o sentimento pessoal do salmista, no Salmo 42: “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando irei e me verei perante a tua face?”. É um apelo que parte do mais profundo da alma, e qualquer coração anelante pode muito bem entendê-lo[12].

Em sua obra Prevenient Grace: God´s provision for fallen humanity, W. Brian Shelton diz que “a doutrina da graça preveniente fornece um link – uma solução – para a lógica desconexão entre a depravação espiritual humana e a necessidade de crer para a salvação”[13].

A graça preveniente, portanto, é o meio pelo qual Deus vai ao encontro do pecador para começar a obra da salvação, atraindo-o e capacitando-o espiritualmente para responder à obra divina. Tal doutrina bíblica ensina que em se tratando de salvação é Deus quem toma a iniciativa de chegar-se ao homem caído, e nunca o contrário, reconhecendo ao mesmo tempo tanto a total depravação humana quanto a possibilidade de o homem resistir a essa oferta graciosa.

Na perspectiva Armínio-wesleyana a graça preveniente não se confunde com a graça comum, porquanto ela possui propósitos eminentemente soteriólogicos, enquanto a graça comum, na visão calvinista, não. Matt O’ Reilly expressa que “graça comum responde à questão de como as pessoas caídas podem fazer qualquer coisa que não seja plenamente maligna. A graça preveniente responde à questão de como as pessoas caídas podem ser preparadas para responder livremente ao evangelho”[14].

por Valmir Nascimento

Trecho do livro Graça Preveniente: Um estudo sobre o gracioso agir de Deus para a salvação humana, Reflexão, 2015.

NOTAS

[1] Não se sustenta, pois, a afirmação de que a graça preveniente não é uma doutrina bíblica por não constar explicitamente no texto Sagrado, afinal, a compreensão de doutrina bíblica extrapola a simples literalidade das Escrituras, para englobar categorias abrangentes do resultado da sua interpretação. Aliás, o calvinismo ele próprio se vale de termos doutrinários os quais não se localizam textualmente em qualquer lugar da Bíblia (e.g. graça irresistível, expiação limitada, eleição incondicional etc).

[2] OLSON, 2004, p. 93.

[3] OLSON, 2004, p. 94.

[4] CAMPOS, Heber Carlos. Graça Preveniente na Tradição Arminiana/Wesleyana (Parte 1). FIDES REFORMATA XVII, No 1 (2012), p. 27.

[5] SHELTON, 2014, posição 3443.

[6] SHELTON, 2014, posição 3443.

[7] SHELTON, 2014, posição 3475.

[8] PATTON, Jeff. Preveniente Grace. Disponível em: <http://www.eternalsecurity.us/prevenient_grace.htm&gt;. Acesso em 10 de maio de 2016.

[9] SHELTON, Brian W. Preveniente Grace: God’s Provision for fallen humanity. Indiana: Francis Asbury Press, 2014, posição 106.

[10] POPE, Willian Burton. Apud: PATTON, Jeff.

[11] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 212.

[12] TOZER, A.W. Seguindo a Deus de Perto. In: O melhor de A. W. Tozer. São Paulo: Estação do Livro, 1997, p. 12.

[13] SHELTON, 2014, posição 313.

[14] O’REILLY, Matt. Graça comum vs graça preveniente. Disponível em:   https://artigos.gospelprime.com.br/graca-comum-vs-graca-preveniente. Acesso em 5 de julho de 2016.

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