O cristão e a participação política


por Valmir Nascimento

I – O QUE É POLÍTICA?

  1. Significado. Os dicionários definem o vocábulo política como a arte de governar. A palavra grega da qual deriva o termo é polis, que significa “cidade”. Em relação ao Estado, o termo pode aludir tanto ao modo como os governantes administram e escolhem as melhores opções para a nação, assim como o processo pelo qual o povo elege os seus representantes para o exercício do poder. Logo, ela é parte essencial da vida humana. Aqueles que afirmam não gostar de política, desconhecem que é exatamente ela quem define os temas que afetam o nosso dia a dia.

II – POLÍTICA SEGUNDO A BÍBLIA

  1. Dupla cidadania do cristão. O cristão vive nesta terra uma verdadeira tensão. Ao mesmo tempo que as Escrituras afirmam que a nossa cidade está nos céus (Fl 3.20; Hb 13,14), asseguram também que somos peregrinos neste mundo (1Pe 2.11). Não há qualquer contradição nessas verdades bíblicas, pois elas simplesmente enfatizam o desafio do servo de Deus em viver de forma transitória na esfera terrenal. Ao interceder pelos seus discípulos Jesus pediu ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (Jo 17.15). Portanto, temos duas cidadanias: celestial e terrena. Uma conquistada por herança, a outra por local de nascimento. Isso significa que os crentes não podem estar alienados da sociedade e das questões sociais, políticas e econômicas. Como cidadãos deste planeta e embasados em uma visão de mundo eminentemente bíblica, devemos respeitar as leis e participar das discussões do cenário político, influindo nos temas da sociedade e do governo, a exemplo de José e Daniel.
  2. Separação entre Estado e Igreja. A conscientização dos crentes a respeito da importância da participação política não significa a união entre o Estado e a Igreja. A propósito, o Senhor Jesus estabeleceu a clara separação entre esses dois entes ao ordenar: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Lc 20.25). As palavras do Mestre reforçam tanto a responsabilidade espiritual quanto social, enfatizando que Igreja e Estado possuem papeis bem distintos. A igreja deve influenciar o governo, mas não pode confundir-se com ele.Quando o Estado tenta intervir na igreja, ou vice-versa, os prejuízos são inevitáveis, com implicações que afetam a consistência doutrinária da cristandade. Foi o que ocorreu quando o Imperador romano Constantino I (272-337) tentou unir a religião cristã com o Estado, incorporando elementos do paganismo. Por isso, a separação entre o Estado e a Igreja foi um ponto crucial defendido na Reforma Protestante.
  3. Obediência às autoridades. As Escrituras também nos admoestam a obedecer as autoridades (Rm 13.1,2), respeitando as leis e o governo civil, pois toda autoridade provém do altíssimo e foram ordenadas por Ele (v.1). Por isso, o conselho paulino para intercedermos pelos governantes (1Tm 2.1-4). Contudo, tal obediência não pode ser cega e irrefletida. Todas as vezes que o Estado confrontar os princípios morais e espirituais decorrentes da Palavra, o cristão deve se preocupar em obedecer mais a Deus que aos homens (At 5.27-29), pois a sujeição à autoridade humana deve ser feita por amor ao Senhor (1Pe 2.13).
PENSE!

A obrigação que o cristão tem de obedecer é válida até que o governo o obrigue a pecar contra os mandamentos divinos. Dietrich Bonhoeffer

PONTO IMPORTANTE

A conscientização dos crentes a respeito da importância da participação política não significa a união entre o Estado e a Igreja

III – A RESPONSABILIDADE POLÍTICA DO CRISTÃO

  1. Dever cívico. O maior instrumento para o exercício da responsabilidade política do cristão é o voto. Como escreveu Charles Colson, “votar é o nosso primeiro dever cívico. Se você não vota está abandonando a obrigação bíblica de ser um cidadão responsável” (Respostas às dúvidas de seus adolescentes, p. 212). Por meio dele, elegemos as autoridades do país, dentre aqueles que concorrem nas Eleições Gerais (Presidente, Governador, Senador, Deputado Federal e Deputado Estadual) e Eleições Municipais (Prefeito e Vereador).

2. Voto consciente. Os discípulos de Cristo devem votar de forma livre e consciente, o que implica em exercer o direito ao voto de modo refletido e com senso de responsabilidade, na busca pelo atendimento do interesse público (Fp. 2.4), à luz dos valores morais e espirituais extraídos das Escrituras. Na prática, isso sugere o seguinte:

a) O voto deve ser precedido da avaliação dos candidatos e de suas propostas de governo. Desse modo, o cidadão dos céus deve ser sábio, optando por aqueles que defendam princípios que estejam em consonância com os valores morais contidos na Palavra (Pv 2.8.28).

b) Investigue a ideologia do candidato e de seu partido político, para não correr o risco de votar em candidatos sem temor a Deus que possam defender propostas legislativas imorais que afrontem a família e os princípios éticos cristãos (2Tm 3.1-7). Lembre-se que ao votar no candidato, você também estará votando no seu partido político, podendo ajudar a eleger outros candidatos.

c) Opte por candidatos que defendam a vida, a família tradicional, a dignidade da pessoa humana e a defesa das liberdades, inclusive religiosa.

d) Cuidado com os falsos “políticos evangélicos”. Aproveitando-se do crescimento dos evangélicos no país, muitos candidatos assim se apresentam a fim de conquistar o eleitorado das igrejas cristãs. Esse contexto exige discernimento por parte dos crentes em Jesus. O simples fato de alguém se apresentar como “irmão” ou “pastor” não é suficiente para merecer o voto dos fiéis. Até mesmo tais candidatos precisam passar pelo crivo da avaliação, para averiguar se possuem compromisso com o reino, bom testemunho público e capacidade para a atuação política. Se tiver tais requisitos, então será merecedor de confiança.

e) Não negocie seu voto. Vender o voto é o mesmo que barganhar a consciência. Além de ser sinal de egoísmo (Gl 5.20), visando o benefício pessoal, é também um ilícito eleitoral. Convém lembrar que considera-se “venda de voto” não somente o recebimento de dinheiro em espécie, mas toda e qualquer vantagem pessoal, inclusive bens e ofertas de emprego.

            PENSE!

“Votar é o nosso primeiro dever cívico. Se você não vota está abandonando a obrigação bíblica de ser um cidadão responsável”. Charles Colson

PONTO IMPORTANTE

A melhor atuação política da igreja deve restringir-se à conscientização e orientação dos seus membros, para que votem com ética e discernimento.

IV – IGREJA E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

  1. Orientação dos crentes. A melhor atuação política da igreja deve ser por meio da conscientização e orientação dos seus membros, para que votem com ética e discernimento bíblico. Cabe à liderança o ensino adequado da política à luz das Escrituras, enfatizando a importância da politização sadia dos crentes e o envolvimento com as questões públicas. Por outro lado, não se recomenda o envolvimento direto da igreja local com as disputas político-partidárias ou a declaração de apoio a candidatos. O púlpito não é lugar para propaganda eleitoreira, e a igreja de Deus (Gl 1.13) não é trampolim político, mas a coluna e firmeza da verdade (1 Tm 3.15).
  2. Posicionamento público. Além da orientação aos crentes, a comunidade cristã também pode se posicionar ostensivamente sobre temas de interesse público, a exemplo da segurança, saúde, educação, segurança pública, assim como alçar a sua voz contra a corrupção e os problemas estruturais da sociedade.

PENSE!

O púlpito não é lugar para propaganda eleitoreira, e a igreja de Deus não é trampolim político, mas a coluna e firmeza da verdade.

PONTO IMPORTANTE

A melhor atuação política da igreja deve ser por meio da conscientização e orientação dos seus membros, para que votem com ética e discernimento bíblico.

CONCLUSÃO

De todo o exposto, arrematamos a presente lição enfatizando quão crucial é o cristão exercer o seu voto de forma consciente e sábia, lembrando que a participação política é uma responsabilidade bíblica.

Fonte: Lição Bíblica de Jovens, 2º Trimestre de 2015, nº 12, CPAD.

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