O olhar de Jesus na perspectiva da Queda


Queda

por Valmir Nascimento

Dando continuidade à série de artigos sobre o Olhar de Jesus (parte 1 parte 2), após avaliarmos a perspectiva da Criação, prosseguimos agora para analisar o segundo foco da visão de Jesus: a Queda. Esse aspecto responde aos dilemas do homem: por que há tanto sofrimento, mazelas, doença e morte no mundo?

O livro de Genesis registra que, embora tenham sido criados por Deus como seres perfeitos, com livre arbítrio, inocência e pureza, o primeiro casal, Adão e Eva, resolveram quebrar o pacto e desobedecer ao mandamento divino (Gn 2:15-17; 3.6), ao comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Eles ultrapassaram o limite moral estabelecido por Deus, provocando aquilo que a teologia chama de Queda, a condição decaída do homem em relação ao Criador, decorrente de um ato espontâneo de desobediência e rebelião.

A narrativa bíblica apresenta os efeitos catastróficos da rebeldia dos primeiros humanos. A Queda trouxe em primeiro lugar separação de Deus. Depois de ter pecado, Adão sentiu medo e tentou esconder-se Dele (Gn. 3.10), em virtude do sentimento de culpa – o alerta da consciência de ter transgredido a lei. É nesse sentido que John Stott afirma: “O pecado não somente separa; ele escraviza. Além de nos afastar de Deus, ele também nos mantém cativos” (1) , do medo, da ansiedade, da depressão, das angústias. Segundo, a Queda provocou o afastamento do primeiro casal. Adão colocou a culpa do pecado em Eva, que por sua vez apontou para a serpente (v. 12, 13). Terceiro, a Queda afetou toda a natureza, injetando desordem no Universo; o trabalho passou a ser realizado com maior dificuldade, pois a terra passou a produzir espinhos e cardos (v.18). Sendo assim, o “trabalho que originalmente era criativo e satisfatório, se tornaria uma questão de fatigante labuta e trabalho pesado” (2). Em outras palavras, toda a criação foi atingida pelos efeitos do pecado. No carta aos Romanos 8.20-22 Paulo explica: “Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou. Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora”.

A consequência mais grave da Queda, no entanto, foi o decreto da morte do ser humano, tanto física quanto espiritual. Deus já havia dito que se comessem do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, certamente morreriam (Gn. 2.17). Em outras palavras, a morte é o resultado do juízo divino sobre a desobediência. Pela morte física, o homem voltou à condição de pó da terra (Gn 3.19). Paulo diz que “por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram”(Rm 5.12). Ainda no livro de Gênesis (4.8) temos o relato do primeiro assassinato, Caim mata Abel. Quanto à morte espiritual, o pecado pôs uma barreira de separação entre Deus e o homem, tanto que Adão e Eva foram lançados para fora do Jardim do Éden, e Deus colocou querubins e uma espada inflamada para guardar o caminho da árvore da vida (Gn. 3.24). A ira de Deus foi lançada e por isso a humanidade está morta espiritualmente em ofensas e pecados (Ef. 2.1).

Alguém pode objetar: se a Queda foi provocada originalmente pela desobediência do primeiro casal, por que toda a humanidade é considerada culpada?. É aqui que entra o conceito teológico de pecado original (peccatun originale); isto é, por uma só ofensa (pecado) adveio o juízo sobre todos os homens para condenação (Rm 5.18). Em virtude da Queda o homem se tornou propenso ao pecado, à corrupção e ao mal. Paulo expressa da seguinte maneira: “Não há um justo, nem um sequer” (Rm 3.10). “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23). O apóstolo João também corrobora: “Se dissermos que não temos cometido pecado, somos mentirosos”.

A teologia cristã chama de depravação total a inabilidade do homem de, por si só, fazer aquilo que é bom. Em seu estado pecaminoso e caído, escreveu o teólogo holandês Jacó Armínio, o homem não é capaz, de e por si mesmo, quer seja pensar, querer ou fazer o que é, de fato, bom; mas é necessário que seja regenerado e renovado em se intelecto, afeições ou vontade e em todas as suas atribuições, por Deus em Cristo através do Espírito Santo, para que seja capaz de corretamente compreender, estimular, considerar, desejar e realizar o que que seja verdadeiramente bom (3).

A ideia da Queda e do pecado original no jardim do Éden parecem soar absurdo – e até mesmo infantil – para muitas pessoas. Mas ela é vital para a compreensão da natureza humana e para a interpretação de toda a realidade. O otimismo de algumas teorias filosóficas, com fundamento no pressuposto de que a humanidade é inerentemente boa, e que o mal é causado pela ignorância e falta de educação, tem se mostrado ilusória e perigosa. Stott lembra que as oportunidades educacionais têm se espalhado rapidamente pelo mundo ocidental e muitos projetos sociais têm sido criados, entretanto, as atrocidades, a corrupção, os conflitos e a opressão insiste em acompanhar a humanidade. O que dizer dos exemplos cotidianos de jovens e adolescentes da classe média alta e rica, que apesar do acesso à educação de qualidade nas melhores escolas e universidades do mundo cometem crimes bárbaros, e o envolvimento na corrupção de políticos e profissionais com boa formação acadêmica?

Os autores Charles Colson e Nancy Pearcey afirmam que a face do mal é assustadoramente comum. Eles dizem isso depois de citar crimes bárbaros cometidos por pessoas aparentemente “normais”, sem qualquer aparência de maldade, como Susan Smith, a mulher que afogou seus dois filhos deixando que o carro caísse num lago com as crianças dentro do veículo; uma criança de 11 anos de idade e outra de 13 que depois de acionarem o alarme de incêndio da escola atiraram nos alunos e professores da escola em que estudavam, à medida que saíam do prédio; ou ainda o caso dos três jovens de Datmouth, Massachusetts, que cercaram um colega da nona séria e o mataram a facadas e, após o ato, sorriram e trocaram cumprimentos batendo as palmas da mão um do outro em pleno ar, como jogadores de basquete celebrando uma boa enterrada na cesta. Colson e Pearcey ainda afirmam que a cobertura da grande mídia dessas crimes oferece todas as respostas convencionais: pobreza (mas a maioria dos matadores era da classe média), raça (mas maioria é branca), infância complicada (mas milhões de crianças no mundo todo vêm de circunstancia de desaforáveis e nunca cometeram crimes) (4).

No Brasil, ao menos dois casos ilustram essa realidade sombria. O primeiro envolvendo a jovem Suzane Louise Von Richthofen que, juntamente com os irmãos Daniel Cravinhos e Christian Cravinhos, planejou com requinte de crueldade a morte de seus pais Manfred Albert von Richthofen e Marísia enquanto dormiam, na noite de 31 de outubro de 2012. O outro caso ocorreu em 28 de março de 2008, envolvendo a morte da menina Isabella de Oliveira Nardoni, de cinco anos de idade, arremessada do sexto andar do Edifício London, em São Paulo, pelo pai, Alexandre Nardoni, e pela madrasta da criança, Anna Carolina Jatobá. Em ambos os episódios os crimes foram cometidos por pessoas da classe média, com boa educação e sem qualquer problema de ordem psicológica.

A razão para se esquivar da explicação cristã para todos esses problemas é a temível palavra pecado. A sociedade pós-moderna, relativista e hedonista do tempo presente, rejeita por completo a ideia da responsabilidade moral. Nada obstante, ela precisa se voltar para o pressuposto bíblico do pecado original e da tendência para a maldade, como diz Paulo em Romanos 7.15 (“Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço), a fim de conferir ordem e segurança para a sociedade. Exemplo disso é que os estados modernos partem da conceito básico que o homem, naturalmente, é falível e propenso à corrupção, daí a necessidade da limitação do poder e controle por parte de terceiros e pela própria sociedade. A estrutura social, jurídica e econômica deve ser estabelecida de tal forma que o poder não seja centralizado ou fique nas mãos de um pequeno grupo de pessoas, reclamando poder absoluto. Jónatas Machado enfatiza que o problema da corrupção moral da humanidade não tem sido negligenciado nem subestimado no mundo jurídico e, mais especificamente, ele tem sido um elemento presente no pensamento republicano desde a Antiguidade, com a defesa de um governo limitado por direitos fundamentais, do principio da separação dos poderes e da existência de controles internos e externos à atuação estatal, com fundamento da doutrina cristã da Queda . Até mesmo os direitos fundamentais devem ser limitados por valores supraindividuais, pois eles não significam o direito de se criar as suas próprias normas morais e de conduzir de acordo com elas em todas as circunstâncias, sob pena de anarquia e anomia (5).

Com efeito, no teste da realidade somente a cosmovisão cristã consegue responder satisfatoriamente ao problema da humanidade. A doutrina do pecado original, alguém disse, é a única filosofia validada por 35 séculos de história humana registrada . A corrupção, o egoísmo, a maldade, a mentira, a usurpação estão no cerne da alma humana, depois da Queda. Para comprovar, abra qualquer jornal diariamente ou assista ao noticiário da noite, para se dar conta da quantidade de crimes bárbaros, chocantes e sem motivos aparentes, que expõe a maldade do ser humano.

Enquanto isso:

Por contraste, a cosmovisão do “iluminismo” provou ser totalmente irracional e intolerável. A negação de nossa natureza pecaminosa e o consequente mito utópico não conduz a uma experiência social beneficente, mas à tirania. A confiança de que os seres humanos são aperfeiçoáveis provê a justificação para ter aperfeiçoá-los… não importa o que precisar. E com Deus fora do quadro, os que estão no poder não se sentem responsáveis diante de qualquer autoridade mais elevada. Eles podem usar qualquer meio necessário, não imporá quão brutal ou coercitivo, para remodelar as pessoas para ajustar-se às suas noções de sociedade perfeita. (6)

A VISÃO DE JESUS

Mas será que Jesus também encarava a humanidade nessa perspectiva da queda e do pecado original? A resposta é sim, pois em diversas ocasiões de sua vida e ministério o vemos alertar para a maldade do homem, seus pecados e mazelas, não como fruto do meio, mas da própria natureza humana decaída e afastada de Deus. No capítulo três do evangelho de João a Bíblia registra a história de Nicodemos, homem de posição elevada em Israel que, depois de ouvir e ver os milagres realizados por Jesus, foi se encontrar com ele, dizendo: “Rabi, bem sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele”. Ao que Jesus lhe respondeu: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus”. Duvidoso, Nicodemos perguntou: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura, pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?”. Mas, Jesus respondeu: “Aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus; o que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito”.

A ênfase de Jesus sobre a necessidade de nascer de novo é muito clara: “aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus”. A palavra “aquele” indica que o novo nascimento é uma necessidade universal, para todas as pessoas indistintamente, como condição para ver o Reino de Deus. Ora, somente é necessário nascer de novo se o primeiro nascimento – natural – possuir algum problema grave. Por isso as Escrituras chamam aqueles que ainda não (re)nasceram de homem natural (1Co 2.14), que não compreende as coisas do Espírito. Ao ensinar os seus discípulos o Mestre afirmou que o espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita (Jo 6.23).

O termo empregado para designar esse novo nascimento é regeneração, a nova vida em Cristo que somente pode ser alcançada pela graça do Espírito. Charles Spurgeon lembra que ninguém é regenerado pelo seu próprio esforço. “Uma pessoa pode mudar bastante, e isto é muito bom; que todos o façam. Uma pessoa pode rejeitar todos os maus hábitos, esquecer os vícios em que andava e controlar suas ações más; ninguém no mundo, porém, pode fazer-se nascer de Deus. Por mais que se esforce, jamais conseguirá realizar o que transcende o seu poder…. o maior esforço da carne não atingirá este patamar, de nascer do Espírito de Deus”. (7)

Sem a regeneração, portanto, o homem continua afastado de Deus e sujeito aos efeitos do pecado e à condenação divina decorrente da Queda. No capítulo três do evangelho de João, ainda na explicação a Nicodemos, Jesus diz:

Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.
Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.
E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más.
Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. (Jo 3.16-20)

O trecho nos mostra que a condenação já foi decretada e não decorre de algo que a pessoa faça. Quem não crê já está condenado, diz o texto. Essa mesma ideia está presente em João 5.24: “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida”. Por conta disso é que em diversas oportunidades Jesus fala sobre o inferno (Mt 5.22; 11.23; Lc 12.5) e a fornalha de fogo onde haverá prato e ranger de dentes (Mt 8.12; 13.42; 22.13).

Isso nos leva a compreender que a visão de Jesus sobre o homem não é romantizada, mas realista. Ele considera a incompletude, a pecaminosidade e a corrupção inerente ao ser humano. Por isso ele afirma: Sem mim, nada podeis fazer (Jo 15.5); Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim (Jo 14.6). A crença em Jesus altera, por assim dizer, o status, a condição, da pessoa perante Deus, trazendo-lhe salvação, como veremos posteriormente, ao tratarmos da redenção.

Referências

1. STOTT, John. Cristiano básico. Viçosa, MG: Ultimato, 2007, p. 98

2. COLSON & PEARCEY. E agora como viveremos. Rio de Janeiro: CPAD, 2000, p. 240.

3. Cf. OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 185.

4. Obra citada, p. 240.

5. MACHADO, Jónatas. Estado constitucional e neutralidade religiosa: entre o teísmo e o neoateísmo. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2013, p. 42/43.

6.  COLSON & PEARCEY. E agora como viveremos. Rio de Janeiro: CPAD, 2000, p. 187.

7. SPURGEON, Charles. O melhor de Charles H. Spurgeon. Curitiba: Editora Luz e Vida, 1997, p. 185.

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