O olhar de Jesus na perspectiva da Criação (2)


Ao contrário da cosmovisão cristã, a visão de mundo naturalista pressupõe a inexistência de propósito para a existência humana. Logo, a vida não tem sentido, restando somente um mundo vazio e desprovido de valor, onde impera o caos e a desesperança. Por essa razão, Ravi Zacharias diz que quando alguém tenta viver sem Deus, as respostas à moralidade, à esperança e ao sentido da vida o enviam ao seu próprio mundo para moldar para si uma resposta individualizada. Ele escreve: “Fora do Cristo não há lei, não há esperança e não há sentido. Você, e só você, é aquele que vai determinar e definir estes elementos essenciais da vida; e você e só você, é o arquiteto da sua própria lei moral; você e só você, idealiza sentido para a sua vida; você, e só você, arrisca tudo o que tem baseado numa esperança que você imagina” .

Willian Lane Craig também expressou o absurdo da vida sem Deus da seguinte forma:

Se Deus não existe, tanto o ser humano quanto o universo estão inevitavelmente condenados à morte. O ser humano, como todos os organismos biológicos, tem de morrer. Se esperança de imortalidade, sua vida apenas caminha para o túmulo. Sua vida não passa de uma faísca na escuridão infinita, uma fagulha que aparece, reluz e morre para sempre”. […] Sem Deus … o ser humano e o universo seriam simples acidentes do acaso, jogados na existência sem motivo. Sem Deus o universo é resultado de um acidente cósmico, uma explosão aleatória. Não há motivo pelo qual ele exista. Quanto ao ser humano ele é um capricho da natureza – um produto às cegas de matéria mais tempo mais acaso. O ser humano não passa de uma massa gosmenta que evoluiu até à racionalidade. Não há mais propósito na vida para a raça humana do que para uma espécie de inseto; ambos são resultado da interação cega de acaso e necessidade.

É por esse motivo que o ateísmo não consegue explicar e atribuir sentido à vida de forma coerente. (Apologética contemporânea, p. 28).

De volta ao nosso tema, essa ausência de propósito objetivo cria aquilo que J. P. Moreland (O triângulo do Reino, p. 32) chama de “eu vazio”. Segundo ele, o “eu vazio” está tão difundido na cultura atual que às vezes chega a ser tratado como praga cultural. Ele cita o psicólogo Philip Cushman: o eu vazio está repleto de bens de consumo, calorias, experiências, políticos, parceiros românticos e terapeutas empáticos. […] o eu vazio experimenta uma ausência significativa de comunidade, tradição e sentido compartilhado, […] uma falta de convicção e mérito pessoal, e incorpora essas carências como uma fome emocional crônica e indiferenciada”. Nesse ambiente social onde a vida é desprovida de finalidade última, as pessoas tentam atribuir sentido a outras coisas, como o consumismo, o sucesso e o hedonismo, gerando com isso uma cultura dessensibilizada, ultrassexualizada, viciada em promiscuidade e pornografia, que falha em satisfazer o anseio pelo drama que nos foi dado por Deus, como afirma J. P. Moreland.

Segundo estudo da Universidade Rush, nos EUA, ter um propósito na vida está associado a menores taxas de mortalidade entre os idosos. “Um propósito na vida reflete a tendência de aferir significado das experiências de vida e ser focado e planejado”, destacou a pesquisadora Patricia A. Boyle. A análise de mais de 1,2 mil idosos que não tinham demência indicou que aqueles que relatavam terem propósitos maiores na vida tinham a metade do risco de morte, comparados aos voluntários com menos propósitos. E os resultados persistiam após os pesquisadores considerarem renda, sintomas depressivos, incapacidade, neuroticismo e número de condições médicas. Segundo os autores, a mortalidade foi mais significativamente associada a três itens do questionário de propósito na vida, que mediu a concordância dos participantes às seguintes questões: “algumas vezes, sinto como se eu já tivesse feito tudo que há a fazer na vida”; “eu costumava propor metas para mim mesmo, mas que agora parecem perda de tempo”; “minhas atividades diárias frequentemente parecem triviais e sem importância para mim” .

Talvez o leitor pergunte: Se a vida tem propósito, qual seria ele? As Escrituras deixam transparecer que o sentido da vida não está em coisas passageiras e idealizadas pelo próprio homem. Ao lermos o livro de Eclesiastes percebemos que o sábio Salomão chegou à conclusão que o significado existencial não estava nas coisas fúteis e temporais, como riqueza, trabalho, prazer e poder. No final do livro, depois de observar o que se passava “debaixo do sol”, ele coloca as coisas na perspectiva apropriada: “De tudo o que tem ouvido, o fim é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque este é o dever de todo homem” (Ec. 12.13).

C. S. Lewis é quem melhor explica o sentido da vida a partir do ponto de vista bíblico. Ele afirma que a razão da nossa existência neste planeta é estabelecer um relacionamento com a Pessoa que nos colocou aqui e, enquanto esse relacionamento não for estabelecido, todas as nossas tentativas de conquistar a felicidade – nossa luta por reconhecimento, por dinheiro, pelo poder, pelo casamento perfeito ou pela amizade ideal, tudo que buscamos por toda a nossa vida – jamais serão suficientes, nunca podendo satisfazer inteiramente o desejo, preencher o vazio, acalmar a ansiedade, ou nos fazer felizes . No sermão “Peso de Glória” proferido na Universidade de Oxford Lewis fala desse desejo inerente ao homem, cuja alma anela por algo superior e sublime; “um desejo que nenhuma felicidade natural pode satisfazer”. Ele escreve:

“A fome física de um homem não prova que ele encontrará pão; ele pode morrer de fome numa jangada em pleno Atlântico. Mas, com certeza a fome de um homem prova que ele pertence a uma espécie que restaura o corpo por meio de comida e habitam num mundo onde existem substâncias comestíveis. Da mesma maneira, embora eu não creia (quem me dera!) que meu anseio pelo paraíso prove que eu vá usufruir dele, penso ser um sinal bastante seguro de que existe algo parecido e de que alguns homens vão encontra-lo. Um homem pode apaixonar-se por uma mulher sem conquista-la; mas seria muito estranho se o fenômeno de ficar apaixonado ocorresse num mundo assexuado”.

Em Cristianismo puro e simples Lewis escreve:

“Deus nos criou como um homem inventa uma máquina. Um carro é feito para ser movido a gasolina. Deus concebeu a máquina humana para ser movida por ele mesmo. O próprio Deus é o combustível que nosso espírito deve queimar, ou o alimento do qual deve se alimentar. Não existe outro combustível, outro alimento. Esse é o motivo pelo qual não podemos pedir que Deus nos faça felizes e ao mesmo tempo não dar a mínima para a religião. Deus não pode nos dar uma paz e uma felicidade distintas dele mesmo, porque fora dele elas não se encontram. Tal coisa não existe”. (p. 66)

Isso significa que o ser humano somente compreende a razão do seu viver quando se volta para o seu Criador; é como uma máquina que foi planejada com uma finalidade específica e somente se sente plenamente realizada, saciada, quando compreende e se volta para esse propósito: glorificar a Deus e ser amado por Ele (Jo 3.16). Naturalmente todos possuem esse senso de propósito. O salmista disse: “Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus!”.

De acordo com a doutrina da Criação, então, temos uma capacidade interna ou ainda, uma necessidade interior no recôndito do nosso espírito de nos relacionarmos com Deus. Rejeitar essa realidade implica em falhar como ser humano; alcançar a realização pessoal é se deixar ficar pleno de Deus.

Outras duas implicações decorrentes da Criação são dignidade e igualdade humana. Em Gênesis 1.26-27 lemos o seguinte: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Essa passagem bíblica é paradigmática e estabelece o princípio segundo o qual todas as pessoas devem ser tratadas com dignidade e isonomia, uma vez que temos a imagem de Deus, não havendo distinção natural entre uma pessoa e outra.

Mais uma vez nos voltamos para o olhar de Jesus. Ele via cada pessoa dotada de valor especial para Deus, até mesmo aquelas excluídas da sociedade da sua época. Ele conversa com uma mulher samaritana, toca fisicamente em leprosos e doentes, vai à casa de publicanos e perdoa até mesmo uma adúltera. Todas essas coisas eram inconcebíveis naquele tempo. Tais pessoas, por um motivo ou outro, eram rejeitadas, indignas de receber um tratamento igualitário. Cristo afasta as barreiras da discriminação e trata cada pessoa de forma especial, estabelecendo um dos conceitos chaves do seu ministério: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10.27).

Jesus nasceu em um estábulo. Teve pais muito pobres. Viveu em total obscuridade na Galiléia. Por que Jesus assumiu uma posição tão baixa em sua encarnação? Para que soubéssemos que ninguém fica fora de sua graça. Todos são importantes aos olhos de Deus. Jesus identificou-se com aqueles que estão no degrau mais baixo da escada, o que significa que todos têm esperança por causa da encarnação do verbo; por causa da descida de Deus. Quer seja branco ou negro, rico ou pobre, bonito ou feio. Todos são iguais aos olhos de Dele.

A dignidade humana é um atributo universal próprio do ser humano, de procedência transcendente, que gera uma pretensão universal de reconhecimento, respeito e proteção tendo como destinatários todos os indivíduos e todas as formas de poder político e social . O jurista português Jónatas Machado (Estado Constitucional e neutralidade religiosa, p. 38) lembra que para a visão do mundo judaico-cristã, essa dignidade especial de ser criado à imagem e semelhança de Deus manifesta-se nas peculiares capacidades racionais, morais e emocionais do ser humano, na sua postura física erecta, sua criatividade e na sua capacidade de articulação de pensamento e discurso simbólico, distinta de todos os animais, por mais notáveis que sejam as suas características. Jónatas destaca ainda que a teologia da imagem de Deus (imago Dei) constitui a base das afirmações de grandes pensadores da história, a exemplo de Francisco de Vitória, Francisco Suareza, Hugo Grócio, Samuel Pufendorf, John Milton, John Lock James Madison e Thomas Jeferson, sobre a dignidade, a liberdade e a igualdade, as quais viriam a frutificar no mundo jurídico, especialmente o direito a liberdade individual e a capacidade de autodeterminação democrática do povo .

O doutor Jónatas Machado ainda destaca: “A dignidade de cada ser humano não é em função do seu valor de mercado, estatuto social, mediático ou profissional ou montante o salario auferido. Do mesmo modo, ele não depende de saber se o ser humano já nasceu ou não, se é criança, homem, mulher, idoso, deficiente, rico, pobre, sadio, doente, presidiário, etc. Qualquer que seja sua condição, os seres humanos têm um valor intrínseco e um significado moral que lhes foi atribuído pelo Criador”.

Quanto à igualdade, se todos partem do mesmo Criador, não há razão e muito menos justificativa para que um ser humano seja considerado superior ou inferior ao outro, daí porque todos merecem ser tratados sem distinção, independentemente da cor, raça, sexo, etnia ou religião. No Cristianismo, o fundamento do tratamento igualitário é o próprio Deus que não faz acepção de pessoas (At 10.34), para quem não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos são um em Cristo Jesus (Gl 3.28). Os cristãos sempre acreditaram que Deus atribui a cada vida humana que cria um valor infinito e que ama a cada pessoa de igual modo .

Ao contrário da cosmovisão cristã, as demais cosmovisões não possuem uma base firme o suficiente na qual a defesa da dignidade humana possa se apoiar. Qual é a justificativa pela qual as pessoas devam ser tratadas com respeito e justiça se elas são meros acidentes biológicos?

Com efeito, muitas pessoas não conseguem compreender como a adoção da teoria darwinista pode afetar drasticamente a forma como encaramos a vida. Essas pessoas são cegas ante a evidência de que a entronização da teoria de Darwin possui implicações para além do “âmbito científico”, capaz de jogar por terra vários aspectos éticos dentro da esfera social. Lembro-me do livro “The Natural History of Rap”, em que dois professores universitários defendem a ideia de que o estupro não é uma patologia biologicamente falando, mas sim uma adaptação evolucionária, uma estratégia para maximizar o sucesso reprodutivo. Para os autores, o estupro é biológico, “um fenômeno natural produto da herança evolucionária humana”, como “manchas de leopardo e de pescoço alongado da girafa”. Em outras palavras, alguns homens podem recorrer à coerção para cumprir o imperativo reprodutivo.

Esse exemplo mostra que a adoção da cosmovisão naturalista tem sérias implicações contra a dignidade da pessoa humana, pois ao retirar Deus do cenário, o darwinismo retira também os princípios que deveriam nortear a vida em sociedade, sobrando tão somente o acaso, impulsos biológicos e materialismo, de modo a tornar legítimo até mesmo o estupro, como um fenômeno natural produto da herança evolucionária humana. Earl Aagaard observa muito bem que até mesmo alguns evolucionistas chegaram a essa conclusão. Segundo ele, James Rachels, no livro Created from Animals: The Moral Implications of Darwinism (Criado Como Descendente de Animais: As Implicações Morais do darwinismo), conclui que o darwinismo subverte a doutrina da dignidade humana. Os seres humanos não ocupam um lugar especial na ordem moral; somos apenas outra forma de animal. De acordo Aagaard, Rachels conclui que o darwinismo destrói qualquer fundamento para uma diferença moralmente significante entre seres humanos e animais. Se o homem descende de símios por seleção natural, ele pode ser fisicamente diferente de símios, mas não pode sê-lo de modo essencial. Certamente não pode ser em qualquer aspecto que dê aos homens mais direitos do que a qualquer animal. Nas palavras de Rachels, “não se pode fazer distinções em moralidade onde nenhuma existe de fato”. Ele chama sua doutrina de “individualismo moral”, e rejeita “a doutrina tradicional da dignidade humana” junto com a ideia de que a vida humana tenha qualquer valor inerente que os seres não humanos careçam”.

Nesse sentido, se a visão naturalista e secularizada do mundo correspondesse à realidade, não encontraríamos qualquer fundamento moral ou racional para afirmar de fato a especial dignidade da pessoa humana; isso porque, como afirma Jónatas Machado, “um acidente cósmico não pode fundamentar qualquer reivindicação plausível de dignidade e reconhecimento relativamente a outro acidente cósmico, por mais inteligente que seja”.

por Valmir Nascimento

#Série Pense com a Mente de Cristo

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