O fascínio do estupro


por Luís Antônio Giron

O cinema tem conjugado sexo e crueldade como nunca. Não me refiro à pornografia, mas aos filmes de autor, aqueles que transportam o espectador a um outro plano, exigindo-lhe reflexão e atitude sobre o que se passa diante de seus olhos. Sequências “autorais” envolvendo sexo, perversão e violência sexual andam ganhando mais adeptos, tanto de quem está atrás das câmeras, como da plateia. A tolerância do público a certas modalidades de tabus parece maior, talvez porque os espectadores as vivenciem no cotidiano. Os cineastas não fazem mais que espelhar – e não raro refratar – a imagem que têm do mundo. Não há inocentes em tal jogo. Há um desejo das audiências e outro de agradar a estas. Assuntos que soavam insuportáveis cinquenta anos atrás hoje são vistos como rotineiros. É preciso então avançar e forçar limites. Que razão há para tamanha obsessão transgressiva? Responder que talvez seja porque não haja mais a figura da transgressão é errado. Não fosse ainda um tabu, não chamaria atenção, não lotaria as salas e não resultaria em grandes bilheterias. Todo mundo sabe que basta estampar a palavra “sexo” em um anúncio, que aparece gente interessada. E o cinema é, entre as artes, o maior campo de testes dos instintos mais básicos do espectador. Então lanço uma questão constrangedora: Será que se avançaram os limites até o ponto de sexo e violência se acoplarem e assim fazer com que hoje o estupro no cinema passe por atração erótica? […]

Se o sexo explícito teve seu tempo (que pode voltar, obviamente), a moda atual é o estupro. Até aí nenhuma novidade. Fiz uma busca no site IMDB com a palavra “rape” (estupro em inglês) e o resultado foi 2.711 títulos. O número de filmes com cenas de estupro (inclusive pornôs) começa a se multiplicar a partir dos primeiros anos da liberação sexual, na primeira metade da década de 60. Houve uma mudança de mentalidade a partir de então. Não vou arrolar dezenas de longas-metragens de arte que investem em cenas do tipo. Os estupradores começam até a ganhar certa simpatia na filmografia recente. No ano passado, a história da violação de uma adolescente foi às telas na adaptação do diretor Peter Jackson do best-seller “Uma vida interrompida” (Lovely Bones), de Alice Sebold – e quase rendeu ao ator que fez o estuprador, Stanley Tucci, o Oscar de coadjuvante. A peculiaridade da trama está na forma como ela é contada, pela própria vítima, diretamente do limbo. O que significa que a audiência tem acesso a detalhes ainda mais escabrosos do crime. E as pulsões de amor e morte são tocadas por eles. Vou repetir o argumento de Walter Benjamin: no escuro, cada espectador se projeta na imagem projetada na tela. Assim, o processo de identificação é incontornável. Por isso, Benjamin definiu o cinema como “arte psicanalítica”. Na situação simulada do estupro, somos a um tempo vítima e agressor. Ocupamos os corpos e as almas dos dois lados do ato.

Ultimamente, o gênero estupro seguido por morte tem merecido maior atenção dos diretores. Quero mencionar dois filmes de suspense. Um faz boa carreira nos cinemas e outro entra em cartaz na semana que vem: o argentino “O segredo de seus olhos”, de Juan José Campanella, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009, e a produção dinamarquesa “Os homens que não amavam as mulheres”, do diretor Niels Arden Oplev, suspense baseado no romance homônimo do sueco Stieg Larrson, best-seller mundial.

São produções aparentemente díspares. Apesar de uma ser sul-americana e outra nórdica, ambas [abordam] o estupro de uma forma intrigante. […]

Os dois roteiros são unidos pelo tema do estupro seguido por morte. Em “O segredo de seus olhos”, o foco está na beleza de Liliana, apesar dos ferimentos profundos deixados pelo assassino. A câmera passeia com volúpia pelo corpo nu violado e ensanguentado, até dar um close up nos olhos vidrados da morta, olhos enormes e… sonhadores. São os olhos do cadáver e do possível criminoso que levam Esposito, fascinado pela beldade morta, a começar a investigação. Em “Os homens que não amavam as mulheres”, os olhos abertos dos cadáveres colecionados pelos criminosos também são mostrados em detalhe. O filme dinamarquês é pródigo nos requintes sádicos. Os assassinatos são cometidos como rituais satânicos, repletos de símbolos e citações bíblicas. Na trama sueca, não há espaço para sentimentalismo. […]

O estuprador do filme sueco [confessa:] “Estuprar é uma experiência fantástica”, diz ele, enquanto começa a enforcar Blomqvyst. “Não existe nada igual a matá-las. O que mais gosto é o olhar delas no momento em que se decepcionam, ao saber que não vou salvá-las, que elas vão morrer. É um instante maravilhoso.”

Por mais que resista por saber que se trata de ficções, o espectador acaba se deixando levar pelo enredo e, talvez, involuntariamente, conduzido a uma situação-limite que poderia ser real. É o que Aristóteles denomina catarse, de purgação dos desejos por meio de um mecanismo de transferência, para usar um termo mais moderno. […] O cinema atual induz o espectador a fantasias proibidas, e entre elas tem enfatizado a do estupro. Ora, o estupro como atração erótica é uma distorção. Para mim, estupro é sexo ruim, mesmo em fantasia. Não há tema vedado à arte, se ela é grande. Agora, porém, os diretores têm confundido a exploração do interdito com excelência estética. O resultado só pode ser o rebaixamento dos sentidos – e da reflexão.

Fonte: Época

[Muito pertinente essa crítica feita por Luís Antônio Giron. Como ele mesmo disse, “por mais que resista por saber que se trata de ficções, o espectador acaba se deixando levar pelo enredo e, talvez, involuntariamente, conduzido a uma situação-limite que poderia ser real”. Trata-se, mais uma vez, da influência negativa da mídia sobre a vida das pessoas. É o mal travestido de “arte”.]

Valmir Nascimento

Anúncios

Um comentário sobre “O fascínio do estupro

  1. Na próxima segunda-feira, 10/05, das 10 às 12h00, estréia na Rádio Web Novas de Paz o programa “EM EVIDÊNCIA”,será apresentado diariamente (de segunda a sexta)pelo Pr. Altair Germano e Com a Participação do Pr. Dário José e do Evangelista Jailson Trajano.

    No programa estaremos comentando, sempre de uma perspectiva bíblica e cristã, os principais fatos e notícias do dia e da semana veiculados na internet, em sites e blogs pessoais e institucionais, evangélicos e não-evangélicos. Alguns sites e blogs já estão definidos como consulta obrigatória, tais como:

    – O Galileo
    – Folha Online
    – Gospel Primer
    – JC Online
    – Blog do Ciro
    – Diário de Pernambuco
    – Genizah
    – Veja.com
    – CPAD news
    – Istoé
    – Cristianismo Hoje
    – R7.com
    – Point Rhema
    – Holofote
    – Renato Vargens
    – Púlpito Cristão
    – Fatos em Foco
    – Reflexões Sobre Quase Tudo
    – E Agora, Como Viveremos

    Outros sites e blogs poderão ser consultados e indicados durante o programa. Todos os blogueiros e internautas estão convidados para ouvir e participar, visto que estaremos via MSN recebendo em tempo real as mensagens e comentários dos ouvintes.

    A Rádio Web Novas de Paz é um empreendimento da Assembleia de Deus em Abreu e Lima-PE, e está inserida na Rede Novas de Paz de Comunicação. Juntamente com o programa “EM EVIDÊNCIA”, outros irão ao ar, alcançando um público bastante diversificado.

    Para ouvir e participar do programa acesse o site http://www.assembleiadedeus-abreuelima.org

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s