Música cristã: os fins, os meios e a missão


por Joêzer Mendonça

Na dinâmica do mundo moderno há uma pergunta sempre recorrente: como tornar o evangelho de Cristo pertinente para a “sociedade do espetáculo”, para uma juventude bombardeada por um fluxo incessante de imagens e signos atraentes e, muitas vezes, com claros incentivos anticristãos?

Para atender às expectativas modernas, muitos líderes e músicos cristãos inserem-se na corrente do Pragmatismo. Isto é, usam novas estratégias, empregam novos meios para alcançar os velhos fins. Entenda-se “velhos fins” por tentativa honesta de divulgar a mensagem cristã, mas também, em outros casos, por velhas finalidades de enriquecimento através da boa-fé alheia. Apesar disso, segundo Wolgang Stefani,“ninguém pode duvidar da sinceridade daqueles que advogam essa abordagem [o pragmatismo], nem depreciar sua ‘utilidade’ e ‘resultados’ , e deve-se considerar seus resultados significativos (Música Sacra, Cultura e Adoração, p. 13).

Na opinião de Calvin Johannson, há falhas mais sérias na abordagem pragmática, como:

1) a desconsideração de normas e padrões resulta na transferência do controle da qualidade e da legitimidade para o gosto do público;

2) a utilização da música como ferramenta manipuladora em substituição a ação do Espírito Santo.

Considerações quanto à opinião de número 1:

a) Não se pode esquecer que Lutero (no século XVI), Lowell Mason e Ira Sankey (ambos no século XIX) promoveram mudanças significativas na música sacra concedendo espaço justamente ao “gosto” da congregação. Lutero, por exemplo, aproximou a música sacra do canto do homem comum de sua época, o qual não sabia latim e nem saberia fazer os tantos melismas do canto da missa católica.

b) É fácil perceber um discurso marcado pelo preconceito social ao se definir o “gosto do público” como o responsável pela perda de qualidade musical. Johannson afirma que tal “gosto” não pode ser legitimado. Mas quem é o responsável por legitimar a estética e o gosto musical? Os privilegiados pelo acesso à educação musical? As classes modeladas pelo cultivo do saber europeu?

Quanto à opinião de número 2, ressalto a quantidade de palestras e sermões que empregam a música como ferramenta para influenciar escolhas e decisões (qual pianista de igreja não ouviu o pedido para tocar uma suave música de fundo na hora final de um culto?). A afirmativa de Johannson traduz a famosa (e discutível) dicotomia entre razão e emoção, sugerindo uma livre escolha racional vinda exclusivamente pela palavra, em contraste com uma submissão emocional causada pela música.

Esse discurso está presente em muitas palestras bem-intencionadas que acabam sendo descuidadas na sua abordagem dos efeitos psicofisiológicos da música, que tratam o ser humano (em especial, a juventude) como objeto de fácil hipnose musical e moral e apontam mais proibições do que orientam positivamente, além de deixarem todas as respostas para a ciência.

Por outro lado, há diversos grupos musicais conhecidos pelos seus momentos de extremada e planejada comunhão. Em alguns momentos, nota-se claramente o estímulo ao êxtase místico ou fuga dos níveis imediatos da consciência, o que é realizado por meio:

– do estímulo à forte concentração (o fechar de olhos durante a canção),
– da alteração da fala (indo da voz embargada ao falar em línguas desconhecidas),
– da performance física (a expressão facial de contrição e o gestual dramático do corpo),
– da repetição prolongada do refrão das canções e das orações de intercessão com um fundo instrumental).

O Esteticismo é um ponto de vista que considera que os valores estéticos garantem a qualidade e a arte necessária para uma aceitável adoração a Deus (Música Sacra…, p. 11). Para Wolfgang Stefani, porém, a medida do que é esteticamente superior tende a ser determinada subjetivamente. Ademais, é difícil precisar o que é de alta qualidade artística. Essa dificuldade se deve a maior valorização das identidades culturais locais e ao caráter de mudança dos padrões aceitáveis na música cristã.

O Esteticismo pode ser nefasto quando um produtor musical insere um certo arranjo ou um cantor utiliza determinado recurso vocal como artifício exibicionista. Nelson Freire, um dos maiores pianistas da atualidade, disse que “o mais importante é a música e não o que eu faço com ela”. Assim, o cuidado exagerado com a estética da música pode se tornar prejudicial quando a mensagem desaparece diante do marketing vocal e instrumental em torno da música. De outro lado, há aqueles que acreditam que o único estilo aceitável é a música erudita europeia até o século XIX. Essa seria, para eles, a música do céu, ou no mínimo a mais aproximada.

Volto à pergunta inicial: Como dar sentido ao evangelho de Cristo no mundo moderno sem recorrer aos recursos de atração secularizantes?

Alguns cantores se acomodam no Pragmatismo hipervalorizado, em que os fins permitem o vale-tudo musical e litúrgico. Outros se apoiam no Esteticismo deturpado, em que o fim é o próprio meio, ou seja, a música e o músico. Infelizmente, às vezes o primordial é esquecido: o sentido de missão.

É preciso estar atento às táticas apelativas do emocionalismo. É preciso estar vigilante quanto às estratégias modernosas de assimilação da música pop e, assim, evitar exageros quanto à adoção natural de estilos contemporâneos. Mas, sobretudo, é tãonecessário para alguns despojar-se das muletas da autopublicidade artístico-musical quanto é urgente para todos desvencilhar-se da carapaça do criticismo autoritário e vestir o manto da orientação bíblica construtiva.

Joêzer Mendonça, Doutorando em música pela UNESP. Escrevo sobre atualidades e antigüidades relacionadas à música, mídia, religião e cultura.

Fonte: Nota na Pauta

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2 comentários sobre “Música cristã: os fins, os meios e a missão

  1. Faz tempo, muito tempo que eu não leio um artigo sobre música com tamanha relevância e com uma abordagem tão lúcida, profunda e equilibrada.
    Assim como o conjunto estrutural institucional da igreja está numa infeliz decadência, todas as questões envolvidas, inclusive rituais, sofrem também com as angústias causadas pelo pós-modernismo, pela excessiva preocupação com o resultado (algo quase empresarial).

    “Sem mim nada podereis fazer” (Jo15.5). Deixa-se a Soberania de Deus e Seu sobrenatural guardados na gaveta de baixo, e se labora em dois opostos: ou o pragmatismo, que, mesmo piedoso fere a ortodoxia verdadeira (diferente da religiosidade travestida de puritana); ou a preocupação exagerada com uma ritualística, elevando a prática dos séculos distantes, e engessando a dinâmica da proclamação e fechando a porta aos mais jovens.

    Para estes últimos serem realmente autênticos, deveriam pregar sem microfone, à luz de velas. Para os primeiros, os fins justificam os meios, aproximando-se dos réprobros revelados em Mateus 7.22-23.

    Parabéns pelo artigo Joêzer, e parabéns pela publicação Valmir. Aproveito e peço autorização novamente para replicar em meu blog.
    Abraço! Deus os bendiga!
    Alberto Oliveira

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