Quadrinhos: janela para uma sexualidade distorcida


por Douglas Reis
 
Maurício de Souza chega aos cinquenta anos de carreira disposto a renovar seu público. Prova inequívoca disso é a empreitada da Turma da Mônica Jovem, adaptação ao estilo mangá de suas criações mais conhecidas. Mas, a exemplo dos quadrinistas americanos, o maior nome das HQs tupiniquins está de olho em outro nicho: o público GLS. 

A iniciativa está agregada ao contexto das histórias da Tina, reformuladas e voltadas atualmente para o público jovem adulto. Na 6ª edição da nova revista, surge um novo componente na trama, um rapaz conhecido como Caio, já definido como melhor amigo da Tina. Apesar do ciúme do namorado da moça, Tina e Caio se apressam em explicar que não têm nada, fora a amizade. Caio afirma até ser comprometido e aponta para outro rapaz! A história é maliciosamente intitulada “O triângulo da confusão”. A notícia foi veiculada no G1.[1] 

Recentemente, a Batwoman (distinta da Batgirl), outra personagem tradicional que entrou de vez no mundo GLS, foi definida como uma socialite que namora uma ex-policial.[2] A tendência aponta para o surgimento de novos personagens gays, tanto nos quadrinhos como nas telonas. Porém, como tudo isso começou?

Dos anos 1980 para cá, a sensualidade passou a desfilar nas histórias de super-heróis de forma aberta, a seguir desembocando em um erotismo bizarro, visível desde as roupas coladas que revelam as formas físicas das heroínas, até situações de coerção sexual, envolvimento erótico ou linguagem obscena. Em Watchmen (que voltou ao estrelato graças ao filme recente), por exemplo, não faltam referências a conflitos sexuais e constrangedores, como o momento em que o Comediante mata a sangue frio uma vietnamita que o feriu, ao vê-lo recusar-se a assumir o filho deles; ou a declaração de que o envolvimento do Dr. Manhattam com a jovem Spectral se deu quando a moça era adolescente, cabendo a acusação de pedofilia, feita dentro da trama por Janey Slater, ex-namorada de Manhattam.  

Evidentemente, a década de 1990 viu uma exacerbação da sensualidade, principalmente promovida pela companhia Image Comics, fundada por artistas que fizeram fama nas gigantes Marvel e DC Comics – as quais, por sua vez, seguiram o “fluxo”, promovendo uma considerável redução dos uniformes de suas heroínas. Um exemplo é a versão “turbinada” da Mulher-Maravilha, desenhada pelo brasileiro Mike Deodato Jr. O mesmo Deodato desenhou Glory (Image) e Elektra (Marvel). 

Sendo que a distorção da sexualidade ganhou tanto espaço nos quadrinhos, não era de se estranhar que comportamentos sexuais não-convencionais figurassem nas suas páginas cobertas por nanquim. O que pode ser pior do ponto de vista da moralidade? É verdade que quadrinhos eróticos, como Valentina e Druuna, tiveram alcance sobre alguns leitores. De pior qualidade, apenas As Meninas Perdidas, criação de Alan Moore (o mesmo que idealizou os Watchmen), obra que defende toda e qualquer expressão sexual, inclusive a pedofilia e o sexo bestial (entre homens e animais).[3] 

 Nenhuma dessas obras, porém, teve alcance tão grande como as novas produções, que igualmente postulam a depravação moral, direta ou indiretamente. O acesso a esse material contamina a imaginação dos jovens e os acostuma ao prazer barato, em que o estímulo visual incentiva a pornografia, desconfigurando a beleza e complexidade do relacionamento sexual, por natureza entendido como ocorrendo entre gêneros complementares, ou, mais explicitamente, um homem e uma mulher. E ainda acham que os quadrinhos são inocente diversão para crianças… 

Douglas Reis
 

[1] “‘Interpretação depende do leitor’, diz Mauricio de Sousa sobre personagem gay”, disponível em http://g1.globo.com/Noticias/PopArte/0,,MUL1382317-7084,00-INTERPRETACAO+DEPENDE+DO+LEITOR+DIZ+MAURICIO+DE+SOUSA+SOBRE+PERSONAGEM+GAY.html

[1] Douglas Reis, “Santa Cássia Eller, Batman!”, disponível em http://questaodeconfianca.blogspot.com/2009/02/santa-cassia-eller-batman.html.

[1] Omelete: entrevista com Alan Moore, disponível em http://www.omelete.com.br/quad/100006266/Omelete_Entrevista__Alan_Moore___Parte_1.aspx (parte 1) e http://www.omelete.com.br/quad/100006359.aspx (parte 2).

Fonte: Outra Leitura, Divulgação: ComoViveremos

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4 comentários em “Quadrinhos: janela para uma sexualidade distorcida

  1. Acredito que o texto levanta questões importantes, pois realmente muitas editoras estão procurando ser mais abertas possíveis em relação à sexualidade, o que é perigoso. Além disso, como acontece em qualquer indústrial, sexo vende e atrai. Não é exclusividade das HQs.

    No entanto, acho que o grande problema é que muitos pais imaginam que quadrinhos são coisa só de criança( o próprio autor do texto parece pensar isso, pela sua conclusão), e não abrem uma revista pra saber o que seu filho está lendo, da maneira como fazemos com os filmes, programas de TV ou sites de internet. Existem HQs para crianças, para adolescentes, para jovens e para adultos. O problema é nossa ingenuidade de achar que quadros desenhados em sequência com balões são apenas leitura para quem não é adulto. Grande engano!

    É por isso que uma leitura como Watchmen não deveria passar nas mãos de quem não tem maturidade para isso. Ela não foi feita para isso, assim como um filme como Silêncio dos Inocentes ou Kill Bill não foi feito para crianças. Mas o que fazemos? Achamos que tudo é coisa de menino. A culpa também é nossa.

    Meu problema com o texto é que ele trata as HQs de maneira um tanto quanto reducionista ao considerar quadrinhos como um bloco quase único de publicações, diferente do que se fazemos ao lidar com filmes, por exemplo. Me parece que seria mais interessante abordar essa arte (sim, é arte) como se faz com o cinema, por exemplo. Analisando cada caso, ou um tipo de padrão que acontece em vários filmes ou analisando certa filmografia de algum diretor.

    O autor se esquece (ou não sabe), por exemplo, que muitos dos escritores dentro da própria Marvel, DC e Image são contrários ao tipo de prática que sexualiza exageradamente a mulher (e homens). É verdade que na década de 90 essa era “a onda”, mas estamos chegando em 2010 e a busca por artes mais realistas, menos exageradas, ou desenhos mais cartunescos, está acontecendo. O problema não será resolvido tão facilmente, mas é um erro achar que até hoje o Deodato, por exemplo, desenha como ele fazia na década de 90.

    Por fim, existem quadrinhos bons e quadrinhos ruins, quadrinhos que mostram boas coisas e que mostram coisas ruins (como qualquer expressão artística). Existem tiras como Calvin e Hobbes, que apresentam valores como família, amizade e imaginação de maneira positiva, mas também expressam a época em que vivemos: um mundo em desencanto, cheio de dúvidas. Da mesma forma, Existem heróis amorais, mas existem heróis bons. Temos a aprender e a evitar em histórias em quadrinhos, como em qulquer lugar.

    As HQs não são mais uma “janela para uma sexualidade distorcida” que filmes, programas de TV, comerciais, livros, pinturas, ou a internet.

  2. De fato, Josaías. Grande parte do problema é a omissão dos pais em relação àquilo que seus filhos consomem. E não sejamos tolos, aquilo que lemos quando criança é parte fundamental na formação de nossa cosmovisão. Eis, portanto, a necessidade de acompanhamento.

    Visitei vosso blog. Muito bom!

  3. Não apenas o controle sobre o material de entretenimento e educação pelos pais deve ser adequadamente efetuado, como também a educação em si é importantíssima. Nos dias atuais, a nudez por exemplo, é fortemente ligada ao sexo e à pornografia, sendo poucos os pais que ensinam os filhos a lidar com isso (tomando banho juntos, por ex., o que antes era habitual e hoje é de certa forma visto de “olhos tortos”). Uma das consequências disso é a erotização errônea das artes e do cotidiano, desvirtuando por ex. o que seria apenas uma vestimenta para um tipo comportamental dos jovens que se assemelha a um exibicionismo, mas sempre com viés sexual. Não por menos, a atual geração é tida como promíscua, e isso é muitas vezes visto como “natural, condizente à fase da vida”. Na minha humilde opinião, promiscuidade (atenção: há diferença entre liberdade sexual e promiscuidade) não é normal em qualquer idade.
    Abraços!

  4. Olá!

    “Inocente diversão para crianças”?

    SOBRE WATCHMEN:

    A série foi galardeada com vários Prêmios Kirby e Eisner, além de uma honraria especial no tradicional Prémio Hugo, voltado à literatura: é até o momento a única graphic novel a conseguir tal feito.[2] Watchmen também é a única história em quadrinhos presente na lista dos 100 melhores romances eleitos pela revista Time desde 1923[3].

    (Fonte: Wikipedia)
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Watchmen

    Acho que vocês estão meio fora da realidade, não é não?

    Abraço!

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