A CRISE E O SONHO AMERICANO


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Valmir Nascimento Milomem Santos

A atual crise financeira pela qual passa os Estados Unidos trouxe à tona algumas verdades inconvenientes acerca da nação – até pouco tempo – considerada a mais poderosa do globo. Em meio aos problemas de ordem econômica que afligem a América, os americanos foram tomados por um certo temor. O medo do terrorismo deu lugar ao medo de uma possível recessão financeira. E pela forma como a questão vem sendo tratada, perder dinheiro é pior do que perder a própria vida. Prova disso é que líderes religiosos do distrito financeiro de Wall Street, em Nova York, revelaram que em meio à crise, o número de pessoas presentes nas liturgias aumentou consideravelmente; principalmente de executivos, homens de negócio e investidores das bolsas de valores.

O medo, percebe-se, em alta velocidade atravessou as linhas continentais. O primeiro-ministro da França, François Fillon, em tom escatológico chegou a afirmar que o mundo está “à beira do abismo”, afetado pela crise financeira global que agora ameaça a indústria, o comércio e o trabalho em todo mundo. A questão é que, quer queira ou não,  os problemas internos de ordem econômica que afetam a terra do “Tio Sam” também produzem estilhaços nos outros países, isso porque no mundo de economia globalizada em que vivemos, os “seus problemas são o meus problemas”.

O início e a mudança do sonho

As verdades inconvenientes reveladas pela crise americana tem como principal pano de fundo o chamado “sonho americano”, o mesmo que o Senador Barack Obama, em seu discurso de oficialização de candidatura à Presidência dos Estados Unidos, supostamente prometeu manter vivo no século XXI.

Originalmente, esse sonho foi concebido como a visão de um país onde a liberdade, a igualdade e a força do trabalho seriam os fundamentos para a sociedade; onde todos teriam condições e oportunidades de alcançar a prosperidade material, sem distinção de classe, religião ou raça. O sonho americano, portanto, foi germinado nos princípios da fé cristã, assim como a própria história da nação, defendendo a liberdade individual e o respeito pelos direitos fundamentais do homem, onde todos deveriam ser abençoados.

Entretanto, com o apogeu da América e toda sua exuberância econômica, o pensamento do sucesso e de aquisição material foi entronizado no modo de vida dos americanos de maneira que a busca primordial passou a ser empregos bem remunerados, casas suntuosas e veículos de alto custo. Esse estilo de vivência arraigou-se tão fortemente à cultura americana que a política financeira de concessão de crédito se amoldou à ostentação, com a criação de formas de pagamento longos e hipotecas fáceis. Esse era portanto o novo “sonho americano”. Com isso, parar tornar o sonho em realidade, as famílias contraíam dívidas e mais dívidas. Casas hipotecadas, veículos financiados e bens penhorados era (e é) a receita mais fácil para demonstrar para toda a sociedade que as coisam vão bem e que o sucesso foi alcançado, mesmo que somente na aparência.

A busca individualista

O “sonho americano” com o tempo pendeu bruscamente para o lado da prosperidade e para o egoísmo (II Tm. 3.1). Eis aí a primeira verdade inconveniente: o sonho americano atual é mais uma tresloucada busca individualista de bens materiais do que um pensamento fraternal de melhoria coletiva. A preocupação do americano com a crise econômica emergente não se dá, portanto, em virtude da idéia de que a nação está sendo atinginda, mas sim porque o poder de compra dele próprio será afetado, e se algo não for feito, em pouco tempo ele não terá condições de manter a sua qualidade de vida.

O grande problema desse novo sonho americano é depositar todas as esperanças na prosperidade e nos bens materiais. Quando os índices financeiros não vão bem  e a inflação aumenta o indivíduo percebe que toda a sua existência está ancorada naquilo que perece. Toda a sua razão de existir está tão atrelada ao que ele possui que o martírio dá perda tira o seu sono e principalmente sua paz.

Obviamente que a Bíblia não censura a riqueza e a prosperidade; entretanto, ela adverte contra a busca dessas coisas como um fim em si mesmo, ou o uso da opressão e da crueldade como uma maneira para obtê-las. Paulo alertou que o – amor – ao dinheiro é a raiz de todos os males (I Tm. 6.10). Jesus afirmou que o homem rico que tinha produzido com abundância, e que pensava somente nos depósito de bens materiais, comer, beber e folgar, nos final de sua vida Deus perguntaria a ele: “Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” (Lc.12.20). Por essa razão as Escrituras deixam claro que não podemos confiar em outra coisa, a não ser em Deus, pois Ele nunca falha, ou baixa a cotação (Sl. 20.7).

O abandono de Deus

Como Jesus disse que ninguém pode servir a dois senhores, pois fazendo isso haveria de odiar um e amar o outro (Lc. 16.13), assim também ocorreu com o “sonho americano”. A segunda verdade inconveniente é que a busca exagerada pela prosperidade retirou o cerne do sonho americano jogando para escanteio os principios que deram motivo à sua criação, relegando a liberdade, a igualdade e os fundamentos bíblicos para bem longe do estilo de vida americano.https://i2.wp.com/www.writespirit.net/inspirational_talks/political/martin_luther_king_talks/martin-luther-king2.jpg

Infelizmente, o sonho original legitimo que inspirou Martin Luther King a lutar bravamente contra a segregação racial nos Estados Unidos, hoje não é mais valorizado como inicialmente proposto. Luther King em seu famoso discurso “Eu tenho um sonho”, o qual ele dizia que era um sonho “enraizado no sonho americano”, falou sobre os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Em um trecho ele diz: Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais”.

Em outras palavras, a nação que um dia foi cristã apresenta-se hoje como pós-cristã. Há pouco tempo, na cidade de Nova Jersey, o professor de espanhol e treinador no colégio público de East Brunswick desde 1983, Marcus Borden, foi proibido pela direção da Escola de orar em público. Depois disso, Borden passou a fechar os olhos, baixar a cabeça e a ajoelhar-se em silêncio no vestiário como forma de fazer valer a sua liberdade de expressão e de respeito para com os seus jogadores. Em Julho de 2006, um juiz de primeira instância deu razão ao treinador. Entretanto, o Tribunal Federal da Filadélfia anulou esta decisão e garantiu que o colégio deveria fazer respeitar o princípio de laicidade, destacando na decisão que “qualquer observador razoável concluiria que Borden não está apenas a manifestar o seu respeito quando abaixa a cabeça e se ajoelha no vestiário, mas também endossando a religião. Em outra situação análoga, o professor John Freshwater, de Ohio, foi acusado pela diretoria da escola por manter guardado na secretaria nada mais que um exemplar da Bíblia Sagrada. Ele ainda foi notificado pela escola a retirar um tapete que constava os 10 mandamentos bíblicos da sua sala de aula.

O que se percebe é que os Estados Unidos tem sido uma arena onde se trava uma batalha ideológica contra o cristianismo. O país que foi fundado sobre os preceitos bíblicos vem demonstrando há algum tempo que a fé cristã já não é mais aceita pela sociedade. Não se trata de estratégia velada de contrariedade à fé evangélica, pelo contrário, atitudes ostensivas de rejeição à cosmovisão cristã e à Bíblia Sagrada são cada dia mais comuns na terra do tio Sam. Essa situação é no mínimo constrangendora pois no país em que todos os “ismos”são permitidos (ambientalismo, feminismo, secularismo, socialismo, comunismo, islamismo), menos o cristianismo é tolerado.

Por esse motivo, quando as coisas não vão bem na economia ou o terrorismo ameaça a tranquilidade, os americanos que haviam se esquecido de Deus começam a voltar-se para Ele; como aconteceu após o 11 de setembro e agora com o abalo financeiro. A verdade é que nas fases do desespero até mesmo o ateu busca o Criador, posto que a alma do ser humano clama por um Ser soberano e onisciente (Rm 1.20), que possa ajudá-lo quando percebe que ele próprio não  tem capacidade de solucionar todos os seus problemas sozinhos.

O sonho de cada um

Em Heróis de Verdade Roberto Shinyashiki escreve que “nunca se viu, em toda a história da humanidade, um culto ao ego tão exacerbado como o de hoje. As pessoas – diz Shinyashiki – desenvolvem a necessidade de fingir que sabem tudo, ganham todas e acertam sempre. Cada vez mais, exige-se que a pessoa mostre o que não é, fale o que não sabe e exiba o que não tem. Nesse mundo de ostentação, as pessoas se encontram mas não se relacionam, trabalham mas não se realizam e, principalmente, vivem sem conhecer a própria alma.”

A descrição de Shinyashiki exemplifica não somente a nação americana, mas sim todo o contexto global, como uma geração cujos olhos são altivos, e as sua pálpebras são sempre levantadas” Pv. 30.13. Por isso, pode-se dizer que o sonho americano e todos os problemas dele advindos não são afetos somente aos Estados Unidos, mas a todo nós, seres humano. A terceira verdade inconveniente é que o homem está sempre em busca de algo que sacie a sede do seu ego e que atenda às suas próprias vontades. O sonho de prosperidade não é somente americano, mas do homem natural. Não são somente eles que buscam tresloucadamente a prosperidade e que em tempos de crise voltam-se para Deus. Muitos agem assim. Na história americana isso é mais evidente, mas eles não são os únicos.

Assim, antes de apontar os erros do sonho americano é bom reavaliar qual é o seu sonho de vida. Quais são os seus projetos? Quais são as suas metas? E mais importante: Qual é o seu propósito de vida?

Aos responder essas indagações você poderá avaliar qual é realmente o seu sonho, e ver se está ou não em busca de simples prosperidade material e confiante naquilo que possui; ou se vive segundo o sonho de Deus, que é bom e perfeito, e na depedência plena a Ele. Lembrando sempre que é melhor estar na crise com Deus, do que viver na bonança sem a presença dele.

Valmir Nascimento Milomem Santos, é graduado e pós graduado em direito. Presbítero Jd. Paulista Cbá. Blog: www.comoviveremos.com

 

 

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2 comentários em “A CRISE E O SONHO AMERICANO

  1. Irmão Valmir,

    confesso que é difícil viver nesse mundo materialista olhando pro céu e, quando você tenta fugir pra outra realidade, dentro da igreja se vê que não é muito diferente: Se você não tiver carro, um bom salário, uma casa você não é abençoado, não é próspero…

    Os Estados Unidos receberam muito de Deus e infelizmente tiraram os olhos dEle para aquilo que Ele deu.

    Temo, mas vejo que o pesadelo chamado de sonho americano está se reproduzindo no Brasil e mais especificamente no meio da igreja de Jesus. Já não se sonha com as mansões celestiais e, sim, com as mansões terrenas. Não se pensa e nem se busca mais as coisas do alto como diz Colossenses 3, mas o inverso …

    Que bom que existem pessoas que pensam como eu, meu irmão.
    Pensei que estava só.

    Deus te abençoe!

  2. A Paz, Valmir!!

    Parabéns pelo ótimo artigo. Extremamente relevante. É amplamente conhecido e discutido o tema da relação entre o capitalismo e a reforma cristã promovida por Lutero. Analogamente, na minha singela opinião, não é difícil relacionar a crise econômica mundial (deflagrada inicialmente nos EUA e disseminada para todo o mundo) com a teologia da prosperidade (igualmente deflagrada inicialmente nos EUA e disseminada para todo o mundo). A teologia da prosperidade marca a transição de um cristianismo centralizado na CRUZ (de Jesus Cristo e dos cristãos) para um cristianismo centralizado nas POSSES (de um “Cristo” coagido por promessas de prosperidade irrestrita para os “cristãos” cobradores). Os seguidores desta cosmovisão teológica da prosperidade – mesmo inconscientes – não pensam duas vezes antes de adquirir dívidas que o permitam ter coisas que “comprovem a sua fé”. E como todo os empreendimentos que não estiverem pautados sobre fundamentos firmes estão fadados ao fracasso – pois todos os que com Cristo não ajuntam espalham – a crise econômica revela o fracasso da cosmovisão pós-cristã ocidental. Há muito tempo que algumas pessoas estão percebendo os efeitos nefastos de se abandonar a Palavra de Deus, mas nestes últimos dias TODOS estão verificando estes efeitos, pois a parte mais importante dos “seguidores da prosperidade” está sendo tocado: o bolso!

    Um abração,

    Rubens Jr

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