CALA BOCA CHÁVEZ (3)


“Por que não te calas?”


É a velha história: quem fala o que quer ouve o que não quer. O nosso peculiar Hugo Chávez desandou a chamar de “fascista” o ex-premiê da Espanha José María Aznar, quando o sucessor de Aznar, José Luiz Zapatero, e o rei Juan Carlos tomaram as dores. Pronto, foi um fuzuê!

“Por que não te calas?”, rosnou o rei, apesar de ter sido sempre tão afável, numa imagem e numa fala que rodaram o mundo e dividiram opiniões. Não sem muitas gargalhadas, cá entre nós.

A primeira reação foi contra Chávez, que fala demais e não tem papas na língua. Chama George W. Bush de “Diabo” em plena Nova York, classifica Aznar de “fascista” diante do rei e agora acusa o próprio rei de “prepotente e desrespeitoso”. Sem contar os impropérios que já despejou contra o Congresso brasileiro, que está votando justamente se apóia ou não a entrada da Venezuela no Mercosul. Ousado, esse Chávez.

A reação seguinte, que começa a surgir agora, dias depois do episódio, é a de analisar o bate-boca sob o ângulo do opressor (o rei, a Espanha…) e do oprimido (a Venezuela, a América Latina), com o detalhe, real, de que Aznar não chega a ser um anjo e de fato estimulou o fracassado golpe de 2002 contra Chávez. Isso, porém, não dá a Chávez o direito de inverter a velha história e inventar uma nova: “Eu falo o que quero e você ouve aí calado”. Não pode. E não tem o direito de irritar os convidados em casa alheia – a confusão foi no Chile.

Chávez é ousado, mas também incauto, porque ele está evoluindo no cenário internacional de bufão para autoritário, de autoritário para ditador pura e simplesmente e de ditador para desafiador do mundo – e não mais apenas do primeiríssimo mundo representado pelos EUA e por Bush.

Chávez foi eleito pela primeira vez em 1999 e respeitou rigorosamente todos os preceitos constitucionais e democráticos para fazer uma limpa numa Venezuela corrupta, antiquada e espoliada (aliás, três adjetivos que sempre andam juntos). Desde então, perde importantes aliados, tanto na área política quanto na militar e na acadêmica. E, se há essa sangria interna, há o consequente desgaste externo.

Chávez está convencido de que bastam o petróleo caro, massas aguerridas, bilhões em armamento e seu carisma pessoal para se perpetuar no poder. Está errado. Ninguém briga com tudo e todos ao mesmo tempo, impunemente. Num mundo global, todos estão de olho em todos. E os investimentos dependem muitíssimo desse olhar.

O cala-boca do rei da Espanha pode não ter sido lá muito diplomático, nem adequado à solenidade intrínseca à realeza, mas traduz uma advertência que vem de dentro da Venezuela para fora, no mundo. Chávez deveria refletir sobre ela, se é que ele é mesmo capaz de refletir além do seu próprio umbigo.

Eliane Cantanhêde é colunista da Folha

Fonte: Folha

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5 comentários sobre “CALA BOCA CHÁVEZ (3)

  1. O Hugo Cháve já anuncio um programa nuclear para a Venezuela. Vejo isso como algo perigoso, pois é alguém que acha que todo mundo tentou um golpe militar com ele, que é tão “santo”.

  2. Kharis kai eirene.

    O problema é histórico e estratégia de marketing desculpe-me em apelar de tal maneira. O seu Hugo, e olha que eu prefiro o “Cháve” mexicano está sempre em busca de polêmica, pois essa é a forma pela qual em se mantém na mídia. Ele deseja tirar o seu país do aninimato através de seus delírios. “El rei” não deve pedir desculpas antes que o próprio “Cháve”, e olha que eu prefiro o mexicano, não se desculpar de sua intolerância e postura anti-ética.

    Valmir, estarei na próxima semana em Cuiabá com o Pr. Rebeque, se for possível jantarmos juntos será uma satisfação.
    Esdras Bentho

  3. Prezado Esdras,

    Eu também certamente sou mais o “Cháve” mexicano. ambos nos fazem rir, tanto o garoto mexicano quanto o aprendiz de ditador venezuelano, porém, o segundo procova-me risadas pelo seu jeito estúpido e arrogante de ser, a cada novo capítulo de sua administração “democrática” surge um evento para nos provocar gargalhadas, ora querendo se perpetuar no poder, outra zombando do Lula, e ainda, soltando suas perólas de inteligência medíocre. Também, peço desculpas, mas esse cidadão é o símbolo da arrogância e de um novo tipo de ditadura, aquela mascarada de democracia e que no fundo busca destruir o direito do povo.

    Concordo contigo, ele se usa desses expedientes geralmente para se manter na mídia, pois, do contrário, não apareceria nem num rodapé de um jornal.

    Na paz

    Valmir

    Ps. Sobre Cuiabá, fiquei sabendo ontem que o irmão estará lá, inclusive outro amigo irá ministrar no mesmo evento (irmão jornalista José San Martin).

    Não sei se será possível estar em Cuiabá nessa data, mas farei o possível para que isso aconteça, e então, possamos dar continuidade àquele nosso bom papo.

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