Quem mexeu no nosso sal?


Por: Valmir Nascimento Milomem

“Há muito tempo, em um país muito distante, quando as coisas eram diferentes, havia quatro pequenos personagens que corriam através de um labirinto à procura de queijo para alimentá-los e fazê-los felizes. Dois eram ratos, chamados Sniff e Scurry, e dois eram duendes – seres tão pequenos quanto os ratos, mas que se pareciam com as pessoas de hoje, e agiam como elas. Seus nomes eram Hem e Haw”.

Assim começa a estória do livro “Quem mexeu no meu queijo”, de Spencer Johnson. Uma paródia interessante que conta as aventuras de dois ratinhos e dois duendes que vivem dentro de um labirinto à procura de queijo. É uma estória sobre mudança de comportamento. Uma metáfora acerca de como devemos enfrentar as mutações que ocorrem em nossas vidas.

Todos os dias os ratinhos e os duendes procuravam no labirinto o seu próprio queijo especial. Sniff e Scurry, por serem roedores, utilizavam somente seus instintos animalescos. Hem e Haw, usavam seus cérebros, cheios de muitas crenças, para procurar um tipo de queijo diferente, que os tornariam bem sucedidos. Algo, porém, eles tinham em comum: todas as manhãs vestiam roupas de correr e tênis, saíam de suas pequenas casas e corriam para o labirinto à procura de seus queijos favoritos.

Até que determinado dia, no Posto C do Labirinto, Sniff e Scurry, Hem e Haw, cada dupla usando o seu próprio método, encontram o maior e melhor queijo de suas vidas. Todos estavam felizes.

Ante tal descoberta os duentes ficaram fascinados. Haviam resolvido o problema de suas vidas. Mudaram-se para próximo do Posto C para ficarem mais próximos do seu precioso queijo. Então, pouco a pouco a confiança de Hem e Haw se transformou em arrogância, começaram a se sentir tranqüilos que nem perceberam o estava acontecendo.

Snif e Scurry, por outro lado, mantinham a sua rotina; chegavam cedo todas as manhãs, farejavam o queijo, arranhavam-no e corriam pelo Posto C, inspecionando a área para saber se tinha havido mudanças desde o dia anterior. Depois, então, sentavam-se para roer o queijo.

Uma certa manhã, entretanto, ao chegarem no Posto C descobrem que o queijo havia desaparecido. Os ratinhos, então, mais que rapidamente pegam seus tênis e partem em busca de um novo queijo. Enquanto Hem e Haw ficam atônitos e desesperados. Não estavam preparados para o havia acontecido. Quem mexeu no nosso queijo? Eles indagam.

Após isso, inicia-se o dilema dos duentes. Aguardam o queijo desaparecido ou partem labirinto à dentro em busca de um novo queijo? Mantêm-se no Posto C ou procuram novas descobertas? O resultado da estória são grandes lições para a vida pessoal e profissional ante as mudanças perpetradas no nosso dia a dia.

Mexeram no sabor do nosso sal

Refletindo acerca desta parábola que quase sempre é aplicada à vida empresarial, observo que ela também possui grandes lições para a vida cristã. Basta simplesmente mudarmos queijo por sal, duendes por cristãos (eis aí algo interessante, muitos crentes preferem ser duendes), labirinto pelo mundo e tirarmos o ratinhos. Pronto, temos um ótimo cenário para meditar.

Por que sal? Ora, foi Jesus quem disse: “Vós sois o sal da terra” Mt. 3:13. Quando Cristo identificou os discípulos ao sal, ele estava fazendo referência à característica de preservação que o sal possui; à sua natureza de conservação e de não permitir que os alimentos se deteriorem.

Quando digo, portanto, que mexeram no sal ou no sabor do sal da igreja cristã, faço referência ao fato dela ter perdido parte da sua identidade; uma alusão à alteração ocorrida ao longos de anos, décadas e séculos no cerne do pensamento cristão; uma ilustração da mudança de padrões na abordagem e consideração do evangelho compreendido entre o período apostólico até os dias atuais; uma mutação prejudicial em relação às verdades bíblicas adotada por alguns templos religiosos.

Uma observação, porém, deve ser feita. Quando se diz que a igreja perdeu o sabor do sal, não se faz referência, é óbvio, à Igreja santa e invisível, noiva do cordeiro, aquela que irá morar nas mansões celestiais. Esta, aliás, nunca perderá o seu foco; de maneira alguma perderá o seu sabor.

A igreja insossa e desprovida de tempero, ao revés, constitui-se de pessoas desvirtuadas e indiferentes à Palavra de Deus. É, na realidade, a igreja de Laodicéia que se infiltra em várias denominações assim chamadas evangélicas, dizendo “rica sou” e agindo como Hem e Haw ao tornarem-se arrogantes. É aquele tipo de igreja que perdeu a simplicidade do evangelho, não possui mais comunhão nem partir do pão, muito menos persevera na oração. É a igreja que não pesca almas, não ensina às nações, nem gosta de tomar o fardo de Cristo.

Mas engana-se quem imagina que o sal é perdido de uma hora outra, ou da noite para o dia. Pelo contrário, o sabor perde-se aos poucos. Inicialmente, assim como ocorreu na estória em comento, a igreja não vigia e se acomoda, fica tão deslumbrada com o sal que possui, que acaba deixando de lado o seu principal papel na terra, que é exatamente temperar o mundo e preservá-lo da corrupção, ou iluminá-lo, preservando-o da escuridão.

Em seguida, a igreja não observa o que acontece ao derredor. Fica tão ligada com as suas próprias formalidades eclesiásticas/religiosas/litúrgicas que esquece das almas que perecem frente às portas dos templos. Quando ela detém-se em assuntos burocráticos e planejamentos festivos esquecendo-se da pregação do evangelho. Quando se envolve em questões políticas e humanas deixando de lado a anunciação das boas novas.

Se no livro de Johnson a idéia é que as pessoas acompanhem as mudanças sociais e profissionais, no caso da Igreja a idéia é exatamente o oposto, qual seja: não deixar que as mudanças atuais e mundanas afetem e prejudiquem o papel da igreja. Eis aí, então, o grande papel dos cristãos na mundo atual, não permitir que os fundamentos que se transtornam dia após dia adentrem aos templos e desvirtue a Palavra de Deus.

Uma rápida olhadela no túnel do tempo é suficiente para notarmos que definitivamente a igreja têm perdido o sabor do sal. Basta retornarmos àquela época em que os templos não haviam “ar condicionado”, porém viviam repletos de pessoas para ouvirem acerca da Salvação. Àquela época em que não haviam automóveis mas que todavia os cristãos caminhavam distâncias infindáveis sedentos de por mais de Deus. Um contexto em que se a pessoa se dissesse cristã seria jogadas aos leões para serem devoradas, mas a fé era tão autêntica que eles enfrentavam bravamente esses enormes desafios. Um tempo em que as perseguições contra os seguidores de Jesus eram tão implacáveis e torturantes que somente quem possuía o sabor do sal poderia dizer: Jesus Cristo é o Senhor!

É, de fato. Sejamos bem francos. Mexeram no sal da igreja! Tiraram o seu sabor! Mas a pergunta a ser feita não é “Quem mexeu no nosso sal”, mas sim, como fazermos para resgatarmos o sabor do sal perdido?

Frente a essa situação a temos duas opções: Ou fazemos como os ratinhos e rapidamente saímos em busca do sal perdido, ou agimos como os duendes, e ficamos a nos perguntar: Quem mexeu no meu queijo?

 

 

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5 comentários em “Quem mexeu no nosso sal?

  1. Kharis kai eirene.
    Olá irmão Valmir, fiquei muito feliz em conhecê-lo pessoalmente e ao nossos amigos, entre eles, o Sildemar (Fidel). Cuiabá é uma linda cidade e o calor…. é outra história.
    Como afirmado no post e também por Jesus, a pergunta “Quem mexeu no nosso sal?” não é tão importante quanto “o que fazermos para restaurar-lhe o sabor?”. “Se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor?” (Mt 5.13). O teólogo Joachim Jeremias afirmara que o sal extraído do Mar Morto não era refinado e, portanto, misturado. Desta forma, sofria lixiviação em função da umidade. Este sal não era puro, razão pela qual era incapaz de conservar a si e aos alimentos. Se a igreja é a Noiva do Cordeiro não perde a salinidade, assim como o sal puro. Porém, ao misturar-se com outros elementos perde sua utilidade para o mundo, assim como o sal para nada mais serve. Cristo reafirma a necessidade de que a IDENTIDADE e a NATUREZA da Igreja seja preservada. Uma igreja sem a santidade, que vive conforme os “rudimentos deste mundo” para nada serve. Essa é uma advertência para cada um de nós.

    Esdras Bentho

  2. Prezado Esdras,

    O prazer foi todo nosso. A conversa que tivemos no sábado foi uma verdadeira benção de Deus. Primeiro por termos tido o privilégio de conhecê-lo; um servo de Deus humilde e que maneja bem a Palavra da Verdade. Segundo, pelo teor da conversa, onde foi possível aprender um pouco contigo. Pena que o tempo passou e nós nem percebemos! Mas certamente teremos outras oportunidades.

    Sobre o seu comentário acerca do post, concordo contigo. Uma igreja sem a santidade, que vive conforme os “rudimentos deste mundo” para nada serve.

    Agora, nós, jovens cristão, principalmente obreiros, temos a responsabilidade sobre os nossos ombros de fazermos com que o sabor do sal seja restaurado à nossas igrejas.

    Precisamos verificar onde ele foi perdido, os motivos que levaram à perda, mas sobretudo, agirmos para salgarmos o mundo em que estamos inseridos. E isso é algo que somente será possível com a plena consciência bíblica de pessoas comprometidas com a plenitude do evangelho e com o estudo continuo da Palavra de Deus.

    Grande Abraço

    Valmir Milomem

  3. Caro Valmir:

    Há um texto em Cantares que diz: “Apanhai-me as raposinhas, pois elas fazem mal à vinha”. Às vezes nos detemos nas raposas (elas são bem visíveis) e nos esquecemos de que o mal é sorrateiro, sutil, veste-se de piedade, apresenta-se como “anjo de luz”, é até pregado nos púlpitos como se fosse a última descoberta da verdade. E muitos acabam enganados. As “raposinhas” são o grande perigo que nos ronda! E aí o sal se tornará insípido mesmo! É preciso, portanto fechar as brechas com o ensino genuíno da Palavra de Deus!

  4. Pr. Geremias do Couto,

    Lembro-me ter lido um de seus artigos em que fala sobre essas tais “raposinhas”. Realmente, elas são difíceis de serem percebidas, e com isso, confrontadas.

    Precisamos estar vigilantes para não deixarmos que pensamentos, malgrado possuírem aparência de cristãos, possam deturpam a verdadeira razão do cristianismo. E o problema, é que, não raras vezes, essas rapozinhas são introduzidas por pessoas que possuem boa vontade no que se refere à igreja, entanto, nõa percebem que estão fazendo ensinamentos voltados para o ego do homem e para o prazeres terrenos. Nesse sentido, temos vistos muita
    benção e pouca cruz, muitas vitórias e quase nenhuma renúncia!

    PDS

    VALMIR MILOMEM

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