A didática do humor


por Valmir Nascimento (Publicado na Revista Profissão Mestre)

De tempos para cá o humor tem sido objeto de estudo de muitos pesquisadores. O riso transformou-se em centro de investigação por parte de estudiosos dos mais variados ramos de atividade, buscando, com isso, descobrir os principais benefícios desse simples ato do ser humano: sorrir.

Já está mais do que provado, portanto, principalmente pela ala da neurociência, que o bom humor não tem nenhuma contra-indicação e que, pelo contrário, só contribui para o bem. Está provado, por exemplo, que o riso é um forte indício de inteligência
e, melhor, que o riso constante aumenta a inteligência.

Na área da saúde, por exemplo, a terapia do riso ou a “risoterapia” tem sido utilizado em muitos hospitais no mundo todo. Segundo o Dr. Eduardo Lambert , clínico geral, homeopata e terapeuta, autor do livro “Terapia do Riso – A Cura pela Alegria”, o riso e sua onda vibratória transmitem energia e uma química que se espalha por todo o corpo, provocando o relaxamento muscular de todos os órgãos. “Mesmo o simples esboçar de um sorriso ou uma gargalhada, estimulam o cérebro a produzir endorfinas, substâncias químicas com poder analgésico, que proporcionam uma enorme sensação de bem-estar”. Além disso, acrescenta Lambert, “as endorfinas estimulam o sistema imunológico contra reações alérgicas, bactérias e vírus; protegem o aparelho circulatório contra enfartes e derrames; ajudam a melhorar a pressão arterial, ampliam a capacidade respiratória e promovem uma ação anti-envelhecimento”.

Nos relacionamentos interpessoais, o bem humorado vive intensamente cada momento e tem sempre sorriso no rosto, ri até mesmo dos próprios erros e dificuldades, criando um clima agradável que estimula as pessoas que convivem com ele a opinar, a participar, a dar o melhor de si, pois se sentem à vontade para arriscar, ousar e inovar, sem medo de serem criticadas.

Na educação, o humor cria um ambiente propício para o desenvolvimento do aprendizado e da criatividade. Com brincadeiras, risadas e alegria, o aprendizado fica divertido, mais eficiente e menos enfadonho, fácil de memorizar e menos pesado. As pessoas bem humoradas têm consciência de que tudo é aprendizado. Segundo Josiane Benedet: “um toque de humor deixa o ambiente menos formal e cativa os alunos. Quando o professor ‘brinca’, os alunos relaxam e se sentem mais próximos, gerando uma atmosfera amistosa”.

As pesquisas, como se percebe, evidenciam os benefícios do humor; falta agora sabermos de onde ele provém. Jasiel Botelho, um cristão cheio da graça – em ambos os sentidos -, responde essa indagação da seguinte forma: “Não foi o homem, não foi o diabo que inventou o humor. O humor foi criado por Deus. Ele o usa em sua própria criação. Basta olhar os animais, como são engraçados, seus corpos, suas formas, o jeito deles viverem. Quem tem olhos para ver, percebe que Deus fez suas criaturas com amor e humor”.

Certo está Jasiel. O verdadeiro humor, aquele que é santo e sadio, não tem outra fonte senão Deus. O bom riso é produto do Criador; o qual Paulo coloca como sendo fruto do espírito em Gálatas 5:22, qual seja a alegria. Esta alegria é resultado imediato do perdão dos nossos pecados e da restauração da nossa comunhão com Deus. Davi tinha plena compreensão a respeito disto, tanto que, quando pecou, quando sentiu que não mais tinha comunicação com Deus, pediu ao Senhor que lhe tornasse a dar “a alegria da salvação” (Sl.51:12). A alegria verdadeira e permanente é conseqüência da salvação, da vida de comunhão com Deus por intermédio de Cristo Jesus.

Benefícios do humor na educação cristã
Em relação à educação cristã, diversos sãos os seus benefícios. Segundo Jasiel “O bom humor é inofensivo a todos os seres humanos, desmascara a hipocrisia, e tem relações profundas com a alegria pura e com a felicidade. Brincar com as nossas posições teológicas e fazer humor da nossa vida religiosa permite-nos ser espirituais e não legalistas; santos e não moralistas; verdadeiros e não hipócritas. Não devemos ter medo de rir, pois rir é coisa séria, e se não for o melhor remédio, eu diria que é melhor que remédio”.

O humor é um instrumento muito poderoso na comunicação da verdade. Alicerçados em uma linguagem forte, interessante e sadia, o humor e a ironia serão capazes de romper a rotina mental, ultrapassar o limite das palavras e nos colocar diante de realidades que antes desconhecíamos. O humor é um dos grandes reveladores da verdade.
O humor também tem como benefício “quebrar o gelo” inicial. Aquele que é muito comum no inicio da aulas, naquele momento em que professor e aluno ainda não se conheceM. O riso é, sobretudo, a boa forma de apresentação, de maneira a “desarmar” aqueles que não estão a fim de assistirem a aula.

O humor possibilita um ambiente de maior liberdade em sala de aula, o que abre espaço para a maior participação dos alunos, principalmente em assuntos que sejam necessária a oitiva de pontos de vistas. Lembremos que foi-se o tempo que a preleção era a forma de ministração de aula, atualmente,mister se faz a participação efetiva dos alunos no processo de ensino/aprendizagem.
Rir ou não rir: Eis a questão

Feitas essas primeiras considerações acerca da importância e dos benefícios do humor, fazemos, então, a seguinte pergunta: O humor serviria também como um instrumento para potencializar o ensino da palavra de Deus na Igreja? Ou ainda: O humor pode ou deve ser utilizado na Escola Dominical?

Inicialmente, convém relembrar que, por longo tempo (e atualmente ainda existe tal pensamento) o humor e o sorriso foram considerados por muitos como um grande vilão na igreja, sendo, por conseguinte, banidos de dentro dos templos. Como é o caso daquela criança que por se sentir feliz, sorria despretensiosamente durante o culto, foi quando sua mãe ao ver aquela felicidade tacou-lhe um beliscão, resultando no choro da criança; qual foi a resposta da mãe: – Assim está melhor!

Desta forma, apesar da Igreja cristã pregar demasiadamente acerca da graça e da liberdade divina, observamos exatamente o contrário – templos repletos de cristãos sem graça. Pessoas carrancudas e mal-humoradas; avessas aos risos e ao bom humor. Colocam um zíper na boca para não sorrirem e uma arma no coração para não se alegrarem, crendo, erroneamente, que ser sério é sinônimo de ser sem graça.

Por outro lado, é claro, devemos considerar que muita coisa já mudou. Temos observado continuamente o surgimento de pregadores e educadores que utilizam o recurso do humor na explanação e no ensino da Palavra de Deus, conseguindo com isso, transmitir conhecimento com muito mais segurança e facilidade. É o caso, por exemplo, de pastores, os quais em suas explanações conseguem conjugar humor com verdades bíblicas, risos com doutrinas verdadeiramente cristãs, de maneira a cativar e, sobretudo, formar cristãos conscientes.

O que deve, porém, ficar bem claro aos leitores é que quando mencionamos a importância da utilização do humor como ferramenta para o ensino da Palavra de Deus, nunca perdemos de vista a necessidade da reverência a Deus em sua casa. Assim, ao referendarmos o uso do riso na educação cristã, de modo algum fazemos menção àquele humor negro, sem propósito, preconceituoso e descabido, o qual, consiste unicamente em contar historinhas e piadas em sala de aula. Não se trata, desse modo, de portar-se como um verdadeiro palhaço em sala de aula, fazendo brincadeira com tudo e com todos. Afinal, como bem ressalta Jasiel Botelho “o humor nem sempre é um instrumento do bem da verdade. Ele pode expressar amor ou ódio, tolerância ou preconceito, fraternidade ou racismo, sabedoria ou ignorância, ingenuidade ou malícia, graça ou desgraça”.

Desta forma, o humor que aqui mencionamos, trata-se de um humor santo, sadio, inteligente e, sobretudo, educativo; refere-se a uma disposição de espírito em que o educador valendo-se de seus conhecimentos bíblicos (isso é fundamental!), aliado à graça, mantém a sua classe em plena sintonia; consiste, portanto, na formação de um ambiente propício à participação e, conseqüentemente a otimização do aprendizado.
Assim sendo, baseado nos benefícios para a educação e conseqüentemente para o engrandecimento do Reino de Deus, dúvidas não existem de que o humor serve – SIM – como instrumento para potencializar o ensino da palavra de Deus na Igreja e, portanto, na exata medida bíblica, deve ser utilizado na Escola Dominical.

Professor sorria! Você está na EBD
Utilizar o recurso do humor em sala de aula, de fato, não é tão fácil como parece. Afinal, bem sabemos, não são todas as pessoas que têm a predisposição ou o dom (se assim podemos dizer) para a utilização do humor. Aliás, isso está intimamente ligado ao temperamento da pessoa. Certos indivíduos possuem elevada facilidade para sorrirem e brincarem com certa desenvoltura, outros ao revés, são naturalmente mais sérios, formais e sisudos, e, por assim dizer fleumáticos (o que não quer dizer que não sejam pessoas alegres). A esses, a utilização do riso torna-se mais complicada.

Como proceder então, nessas circunstâncias?

Sorria! Essa é a melhor dica. Mas sorria com o coração. O sorriso abre espaço para a amizade e a fisionomia alegre contagia o ambiente. Quando você sorri, está dando liberdade para seus alunos sorrirem também.
De nada adianta, por exemplo, o professor passar trinta minutos da sua aula com a “cara amarrada” e, de repente, soltar uma historinha engraçada. O que vai acontecer? Nada! No máximo os alunos ficarão sem entender o que o professor quis fazer. Afinal, o “cartão de visita” que tal professor havia apresentado no início da aula tinha como título “AUSÊNCIA DE RISO”.

Destarte, a utilização do humor como recurso didático, não se resume a um simples ato isolado na tentativa de causar risos nos alunos, pelo contrário, percorre todo a lição, têm início já no começo da aula, onde o educador ao apresentar o seu “cartão de visita” demonstra que aquela aula terá com base a ALEGRIA, de maneira a cativar a atenção dos alunos, os quais, saberão antecipadamente o estilo daquela aula, qual seja: “PRESENÇA DE RISO”.

O professor que se mantém completamente sério no momento da lição, constrói uma barreira quase que intransponível em relação aos seus alunos. De maneira que esses se distanciam ainda mais na medida em que a aula se torna mais rígida e formal. Fazendo assim com que os alunos desprendam as suas atenções do professor o que culminará, logicamente, em um fraco aprendizado.

De nada adianta também, trazer de casa uma anedota pronta para ser lida mecanicamente em sala de aula. Tal atitude pode até chamar a atenção dos alunos momentaneamente, mas, logo após, tudo volta ao normal. O bom humor, na realidade, é aquele espontâneo, que nasce nas entrelinhas de um ensino; nas pequenas coisas que poderiam passar despercebidos; na aplicação de um caso real, contada de maneira teatral, ou ainda, através da conjectura de atos dos personagens bíblicos. Outro dia, por exemplo, enquanto lecionava para a classe de jovens acerca da parábola da rede, fiz uma conjectura de maneira teatral sobre uma suposta discussão entre Pedro e Tiago, à beira do mar da Galiléia, que demorando um longo período acabou por obstar a pescaria. O objetivo era chamar a atenção dos alunos para a importância da pesca de almas, o que, devido às discussões intermináveis entre os cristãos acaba sendo prejudicada. Como muito bom humor a mensagem foi compreendida pelos alunos e Cristo, engrandecido.

Outra coisa que não se pode esquecer é o fato de que a utilização do humor não deve ficar restrita somente à classes de crianças, adolescentes e jovens. Antes, deve ser direcionada a todas as classes, sejam adultos ou novos convertidos. Ou esses também não têm o direito de rirem também?

História de um cortador de cana
E para terminarmos com muito bom humor, vejamos a estória de certo caipira que estava no seu trabalho rotineiro, num canavial, quando, de repente, viu brilhar três letras no céu: VCC. Muito religioso, o caipira julgou que aquelas letras significavam: “Vai Cristo Chama”. Fiel à visão correu ao pastor de sua igreja e contou-lhe o ocorrido, concluindo que gostaria de devotar o restante de sua vida à pregação do evangelho. O pastor, surpreso diante do relato, disse:
– Mas para pregar o evangelho, é preciso conhecer a Bíblia. Você conhece a Bíblia o bastante para sair pelo mundo pregando a sua mensagem?
– Claro que sim! Disse o homem.
– E qual é a parte da Bíblia que você mais gosta e conhece?
– As parábolas de Jesus, principalmente a do bom samaritano.
– Então, conte-a! Pede o pastor, querendo conhecer o grau de conhecimento bíblico do futuro pregador do evangelho.
O caipira começa a falar:
– Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu entre os salteadores. E ele lhes disse: Varões irmãos escutem-me: Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou. E lhes entregou seus bens, e a um deu cinco talentos, e a outro, dois, e a outro, um, a cada um segundo sua capacidade. E partindo dali foi conduzido pelo Espírito ao deserto, e tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, teve fome, e os corvos lhe traziam alimento, pois se alimentava de gafanhoto e mel silvestre. Sucedeu que indo ele andando, eis que um carro de fogo o ocultou da vista de todos. A rainha de Sabá viu isso e disse: “Não me contaram nem a metade”.
– Depois disso, ele foi até a casa de Jezabel, mãe dos filhos de Zebedeu, e disse: “Tiveste cinco maridos, e o homem que tens, não é teu marido”. E olhando ao longe, viu a Zaqueu pendurado pelos cabelos em uma árvore e disse: “Desce daí, pois hoje almoçarei em tua casa”. Veio Dalila e cortou-lhes os cabelos, e os restos que sobraram foram doze cestos cheios para alimentar a multidão. Portanto, não andeis inquietos dizendo: “Que comeremos?”, pois, o vosso Pai celestial sabe que necessitais de todas essas coisas. E todos os que ouviram se admiraram da sua doutrina”.
Depois da sua “brilhante pregação” o caipira, entusiasmado, olhou para o pastor e perguntou:
– Então, estou pronto para pregar o evangelho?
– Olha meu filho, disse o pastor; eu acho que aquelas letras que apareceram no céu não significam: “Vai Cristo Chama”, e sim:
“Vai Cortar Cana!!!”

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